A Língua Cónia: Raízes Africanas da Língua dos Cónios

A maioria dos antropólogos e historiadores acreditam que as populações pré-indoeuropeias da Península Ibérica são originárias do norte de África e que, a partir da Península se espalharam depois pelo sul de França, Córsega, Sardenha e Sicília. A civilização que deixariam no solo europeu seria conhecida como Civilização Aurinhacense e o seu tipo humano por Crô-Magnon. Esta primeira migração dataria – segundo Lewis Spence – de aproximadamente 23.000 a.C. Este tipo humano foi encontrado entre os berberes do norte de África, nos Guanches das Canárias, na Bretanha, nas ilhas do norte da Holanda e nas Ilhas Britânicas.

Por volta do décimo milénio a.C. chegam à Península as primeiras populações capcenses, também vindos do norte de África, a civilização que introduziu na Península a domesticação do cão e o uso do arco e da flecha. Para Bosch Gimpera (“Ensayo de una reconstruction de la etnologia prehistorica de la Peninsula Iberica”, Barcelona, 1923) estes capcenses eram de raça mista, incluindo tipos “mediterrânicos” ou “ibéricos”, para além de elementos negróides e armenóides (caucasianos).

As montanhas do norte da Península permaneceriam relativamente imunes a estes fluxos migratórios permitindo a sobrevivência de populações ainda mais antigas, nomeadamente dos Astures e Bascos de que falámos mais acima a propósito do substrato ibérico, um fenómeno que seria reeditado séculos mais tarde aquando da última grande migração do norte de África, conduzida por Al-Tarik que levaria os exércitos islâmicos (constituídos sobretudo por berberes) até às bases das montanhas do Norte, até a essas mesmas Astúrias onde estancariam os capcenses e os aurinhacenses.

O local exacto da origem destas populações pré-históricas no norte de África não é conhecido com exactidão, mas Sergi julgou tê-lo encontrado no deserto do Saara, numa região que as pinturas rupestres revelam ter sido fértil e povoada, um equilíbrio natural que ao entrar em progressiva ruptura forçou à emigração das populações locais, primeiro para o litoral mediterrânico, depois para a Península Ibérica.

Depois destas migrações, ocorreu pelo menos mais uma corrente migratória do norte de África. Deste modo, a influência linguística mediterrânea reforçou-se. Após os migrantes que trouxeram consigo a cultura Azilense, vindos directamente por Gibraltar, seguiram-se assim os Tardenoisenses (entre 4000 a 3500 a.C.) que através da Sicília e da Itália se espalharam por toda a Europa, chegando enfim à Península Ibérica. Esta comunhão étnica e, provavelmente, linguística dos dois lados do Mediterrâneo é ainda testemunhada, em período romano, pela existência de exemplos do sufixo –icca em diversos topónimos no actual Marrocos e em diversas cidades pré-romanas e romanas no sul da Península Ibérica (Bodicca, Bonica, Karica) e até no território que hoje pertence à Roménia.

Das palavras anteriores pode deduzir-se que defendemos a filiação da língua dos cónios com a família afro-asiática de línguas. Isso parece-nos pacífico, mas exactamente dentro de que ramo da família afro-asiática? Nada aponta para uma filiação nos ramos chadianos, egípcio antigo, cuchítico, omótico ou semita, embora nesta direcção possam existir diversas penetrações, especialmente no vocabulário técnico e comercial. Aquela língua que nos parece mais próxima, por razões históricas, é o ramo Berbere, outrora amplamente falado no norte de África, mas hoje confinado pela expansão fulgurante da língua árabe nessa região. No capítulo em que ensaiaremos a análise das estelas cónias trataremos de aferir da validade desta tese.

A abordagem morfológica dos signos da Escrita Cónia aponta para a existência de um grupo de signos ausentes no principal sistema importado, o fenício, e mesmo no secundário, o grego. Aparentemente, existiram alguns fonemas na língua Cónia que eram desconhecidos pela fonética afro-asiática (fenícia) e grega (indo-europeia). Aqui se vislumbra mais uma vez a verdade: a língua cónia não era nem afro-asiática (fenícia), como defende Moisés do Espírito Santo, nem Indo-europeia (grego), mas pertencente a um Grupo de Línguas diferente. Se assim não fosse, não haveria necessidade de representar novos fonemas. J. R. Ramos escreve que a língua tartéssica e sudlusitânica não eram com toda a probabilidade nem ibérico nem uma língua indo-europeia, e encontra nesta tese diversos argumentos de ordem linguística e até de ordem toponómica: Com efeito, é possível estabelecer um paralelismo entre as regiões onde surgem em nomes de lugares terminações de um dado tipo e as línguas das populações que as habitavam. Assim, sendo teríamos a seguinte relação toponómica:
“-briga”: Indoeuropeu falado por Célticos e Celtiberos;
“-iltir/-iler/-iltur/-ilur”: Ibérico falado por povos Ibéricos e
“-ippo/-oba”: Cónio ou Tartéssico falado por Cónios e Tartéssicos.

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Categories: A Escrita Cónia | 1 Comentário

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One thought on “A Língua Cónia: Raízes Africanas da Língua dos Cónios

  1. Carlos

    Lewis Spence ?(!!!) – o da History of Atlantis…

    http://www.litencyc.com/php/speople.php?rec=true&UID=4167

    “Scottish writers and poets such as Lewis Spence, the Hon. Ruaraidh Erskine of Mar and William Gillies were also interested in the religious and spiritual dimension to national consciousness. Erskine was a Catholic as well as a Gaelic Revivalist who believed that the Protestant Reformation was responsible for the English domination of Scotland.”

    http://www.siol-nan-gaidheal.com/hstoom.htm

    Atlantis lyrics by Donovan

    “The continent of Atlantis was an island
    Which lay before the great flood
    In the area we now call the Atlantic Ocean.
    So great an area of land,
    That from her western shores
    Those beautiful sailors journeyed
    To the South and the North Americas with ease,
    In their ships with painted sails.
    To them East Africa was a neighbour,
    Across a short strait of sea miles.
    The great Egyptian age is
    But a remnant of The Atlantian culture.
    The antediluvian kings colonised the world
    All the Gods who play in the mythological dramas
    In all legends from all lands were from far Atlantis.
    Knowing her fate,
    Atlantis sent out ships to all corners of the Earth.
    On board were the Twelve:
    The poet, the physician, The farmer, the scientist,
    The magician and the other so-called Gods of our legends.
    Though Gods they were –
    And as the elders of our time choose to remain blind
    Let us rejoice
    And let us sing
    And dance and ring in the new Hail Atlantis!”

    http://www.lyricsfreak.com/d/donovan/atlantis_20319709.html

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