Moedas Locais: Catalisadores para Economias Regionais Sustentáveis (Parte II)

(continuação e final)

“Na década de trinta a Deflacção mundial encorajou muitas formas de troca que competiam com as moedas nacionais. A cidade de Woergel na Austria criou na época um sistema que chamou a atenção internacional. Os habitantes desta pequena cidade austríaca criaram então um sistema monetário que despertou a atenção internacional. Os habitantes desta pequena cidade eram capazes de comerciar trabalho e materiais, que tinham em excesso, usando esta moeda local em vez da moeda nacional austríaca, que não tinham e assim conseguiram manter-se livre da Depressão assolava a Austria no período de alguns meses. As moedas locais também foram populares nos EUA. Um antigo editor do jornal “The Springfield Union” do MAssachusetts contou-nos a história de uma moeda local emitida pelo seu jornal. Na ápoca dos colapsos bancários da década de 1930s, ele era apenas um moço de recados; mas recorda-se de que o editor do jornal Samuel Bowles pagava aos seus empregados nessa moeda. Podia ser usada nas lojas que anunciavam no jornal e as lojas pagavam os seus anúncios com a moeda, fechando o ciclo. A moeda era tão popular que os clientes começaram a pedir o uso da moeda em toda a cidade, dado que esta moeda começava a ser mais popular do que a própria moeda federal. A moeda do jornal auxilou a economia local de Springfield durante a Depressão, facilitando as transacções comerciais, e alcançando um âmbito muito maior do que o originalmente pretendido.

 

Catorze anos mais tarde na cidade de Exeter, no New Hampshire, os economistas Ralph Borsodi e Robert Swann emitiram uma moeda baseada num padrão de valor calculado a partir de 30 bens distintos num índice semelhante ao Dow Jones. A moeda foi designada por “Constant” porque – ao contrário das moedas nacionais – poderia manter o seu valor ao longo do tempo. O “Constant” circulou em Exeter durante mais de um ano, provando que as pessoas eram capazes de usar uma moeda que não era a familiar nota verde americana. Na época, recebeu atenção de meios de comunicação como a Time, a Forbes e de outras revistas americanas. Quando interrogado por um jornalista sobre a legalidade da moeda, Borsodi sugeriu que o repórter confirmasse a mesma com o Departamento do Tesouro, o que este faria, sendo-lhe respondido: “Não nos importamos se ele emite pinhas, desde que sejam camibáveis com o dólar de forma a que estas transacções possam ser registadas para efeitos de imposto.” Isto é tudo o que o Governo exige de uma moeda local, e tudo o que uma moeda local requer da comunidade é confiança. Uma moeda só é forte enquanto fôr forte a confiança que as pessoas têm umas nas outras na sua capacidade de produzir algo com valor. A confiança foi o coração do sucesso em Springfield, Woergel e Exeter…

 

Borsodi abandonou esta experiência ao fim de um ano, mas alcançou o seu propósito: demonstrar a aceitação local e verificar a legalidade das moedas emitidas localmente e não-governamentais.

 

A cidade de Southern Berkshire em Great Barringtom, sede da E. F. Schumacher Society, tem dado passos decididos no sentido de emitir uma moeda de Berkshire. Em 1982 um grupo de debate sobre Economias Regionais conduziu à incorporação da Sociedade na organização não-lucrativa SHARE (“Self-Help Association for a Regional Economy”). O objectivo era o de estabelecer uma base regional para uma moeda local. O primeiro alvo da SHARE era o de fazer empréstimos produtivos para pessoas que não conseguiam que a banca convencional a financiasse, mas que tinha o topo de pequenas emrpresas que produziam bens e serviços de qualidade para consumo local. Alguns destes negócios conseguiam empréstimos a taxas de 15 ou 18 por cento, e a SHARE determinou-se a disponibilizar empréstimos de baixo custo. Os membros da SHARE abriram contas de poupança no “First National Bank” de Berkshires e estas contas foram usadas para colaterizar os empréstimos. O Banco realizava empréstimos e geria a sua contabilidade, mas as decisões de gestão eram fundamentadas em critérios sociais, ecológicos e financeiros.

 

Sue Sellew da quinta de Rawson Brook fazia queijos de cabra a partir do leite das cabras da sua criação e das ervas que recolhia nas suas plantações orgânicas. Sue recebeu 5000 dólares da SHARE para o seu negócio de forma a adaptar a sua actividade para os padrões do Estado. Isto permitiu-lhe passar a vender o seu queijo para lojas e restaurantes.

 

Jim Golden treinava os seus dois cavalos, Spike e Rosie, para transportarem madeira e lenha da floresta da sua quinta. Jim garantia aos seus clientes que as suas madeiras eram tratadas de forma ecológicamente responsável e que os seus animais não sofriam com o stress do seu trabalho pesado. Um empréstimo SHARE permitiu-lhe construir um estábulo na sua quinta para os seus animais.

 

Bonnie Smith nunca tinha pedido dinheiro emprestado, mas tinha uma máquina de costuma e talento para desenhar roupas. Um pequeno empréstimo SHARE permitiu-lhe comprar uma grande quantidade de lã, a baixo custo, o que lhe permitiu baixar o preço final dos seus produtos e estabelecer crédito junto dos seus fornecedores. Pediu um novo empréstimo para uma segunda máquina de costura, logo que pagou o primeiro empréstimo. O seu negócio cresceu, e pediu um terceiro empréstimo para uma nova máquina de costura para o seu primeiro empregado. Os primeiros dois empréstimos permitiram-lhe ter um crédito bancário convencional para o seu negócio, e a SHARE encaminhou a partir daí Bonnie para um Banco que lhe concedeu uma linha de crédito.

 

O registo de retorno financeiro da SHARE foi de 100 por cento, quer devido à sua escala quer devido ao apoio da comunidade aos receptores de empréstimos. Os membros da SHARE ajudaram a manter este registo perfeito através das recomendações que faziam destes negócios aos seus amigos e conhecidos. Muitos empréstimos eram concedidos a novos empreendimentos que precisavam de menos de 3 mil dólares para começarem a sua actividade. Eram conceduidos para equipamentos e inventário, mas não para pagamentos de salários ou campanhas de marketing, e muito menos, para empréstimos de consumo. Um professor de piano comprou um piano com fundos emprestados de forma a poder oferecer lições em sua casa, mas um pedido para um empréstimo para compra de um piano para uso privado foi remetido para um Banco convencional.

 

O programa de colaterização de empréstimos da SHARE é simples e pode ser facilmente duplicado. Programas semelhantes arrancaram já nos Estados Unidos usando o modelo criado em Berkshires. Este foi o responsável pelo sucesso do modelo “familiar” a SHARE: Quando pessoas sem historial de crédito decidem tentar criar o seu próprio negócio, viram-se frequentemente para um membro da família, como uma avó, em busca de ajuda. Em vez de emprestar directamente, a avó pode ofecer uma conta de poupança como colateral a um empréstimo bancário. O programa SHARE estende simplesmente o “circulo de avós”, criando uma “família financeira”.

Original em: E.F.Schumacher Society

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Categories: E. F. Schumacher Society, Economia, Movimento Internacional Lusófono | 2 comentários

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2 thoughts on “Moedas Locais: Catalisadores para Economias Regionais Sustentáveis (Parte II)

  1. Dos melhores artigos aqui, se um dia a crise estala.
    Pena ninguem comentar.
    Sei, que além destas histórias, há mais de sucesso, pois já li pelo menos duas.
    Uma, era o “dollar” qql coisa, seria liberty? . Lembro-me que é vendido, lol
    Enfim, temos que pensar no futuro, embora com mais activismo, não fosse necessario tanta coisa, acho…

  2. Thomas

    Estou pensando sobre a realização em bairros de baixa-renda, to procurando ecônomos, sociólogos e gente em geral para començar com um projeto na região urbana e rural-suburbana de São Paulo.

    xwassermannzeitalterx@web.de

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