Moedas Locais: Catalisadores para Economias Regionais Sustentáveis (Parte I)

 

 

por Robert Swann e Susan Witt, Fevereiro de 1995

 

Traduzido a partir de: http://www.schumachersociety.org/publications/essay_currency.html

E. F. Schumacher argumentou em “Small is Beautiful: Economics as if People Mattered“, que de um ponto de vista verdadeiramente económico a forma mais racional de produzir seria a partir de “recursos locais, para necessidades locais.” Jane Jacobs, uma das maiores especialistas actuais em Economias Regionais, enfatizou o ponto de vista de Schumacher através das suas análises de uma região saudável como uma região capaz de criar industrias de “importação-substituição” numa base continuada. Uma economia regional bem desenvolvida que produzisse para as suas próprias necessidades é apenas possível quando controla os seus recursos e o seu financiamento reside na própria região. Na actualidade, a propriedade da terra, dos recursos naturais, e da industria são as condições determinantes para receber crédito, isto, a um nível centralizado e nacional. Actualmente todas, com excepção de algumas raras zonas urbanas, têm os seus recursos económicos controlados a partir de fora dessa área.

O sistema bancário é uma das instituições mais centralizada da nossa Economia e um dos maiores obstáculos para o reforço das economias regionais e das comunidades que nelas vivem. E contudo os bancos centralizados são apenas um desenvolvimento recente nos Estados Unidos. O hábito de pedir emprestado e emprestar e até de imprimir papel-moeda cresceu durante gerações nas cidades e comunidades ruras até formar aquilo a que hoje chamamos de “sistema bancário”. Estes sistemas bancários regionais eram de pequena escala, regionais e descentralizados. O Papel-moeda foi tornado padrão e nacional, em 1863, de modo a recolher fundos para a luta contra os Estados Confederados, mas foi só em 1923 que um sistema central se tornou formalizado através do “Federal Reserve Act”. Os bancos centralizados e o controlo do dinheiro exigiam grandes bancos e investidores abastados que pudessem reunir grands quantias de dinheiro, a uma escala sem precedentes. Estes bancos eram centros de dinheiro, com os seus clientes industriais, e podiam pagar mais juros aos seus depositários que os bancos pequenos, e aliás, muitos destes bancos pequenos começaram a enviar os seus próprios fundos para estes grandes bancos das grandes cidades americanas. A criação de uma moeda nacional fez o dinheiro mais fluido e permitiu que os dólares rurais sustentassem o crescimento industrial urbano. Os emprestadores rurais ficaram satisfeitos com o arranjo até que o primeiro banco de Nova Iorque fechou e levou consigo as poupanças de uma pequena cidade e um agricultor local deixou de poder pagar o seu empréstimo porque um banco de Chicago estava a emprestar dinheiro ao seu banco local a uma alta taxa de juro.A moeda nacional facilitou a industrialização dos Estados Unidos, que por seu lugar, criou muitos empregos: contudo, a centralização do sistema monetário serviu também para centralizar os beneficiários do sistema.

O efeito sobre os pequenos agricultores e sobre as economias rurais foi devastador. A contínua “crise das quintas” foi uma manifestação dramática do que foi realmente a crise monetáriaque começou com a profunda depressão das décadas de 1870 e 1880 e que levaria mais tarde ao “Federal Reserve Act”. O crédito para quintas de pequena escala e para pequenos negócios rurais que eram parte da comunidade local secou completamente ainda antes da Depressão da década de 1930, e o governo dos Estados Unidos teve que criar a “Farmers Home Administration” de forma a substituir com dinheiro dos impostos algum do capital rural que havia sido irremediávelmente perdido para as grandes cidades.

A “crise do alojamento” foi também parte desta crise monetária. Os investidores colocaram o seu dinheiro em terra como uma “defesa contra a inflação”, que arrastava os preços da terra e do imobiliário para cima. O alto custo da terra foi um factor determinante na atual escassez de casas acessíveis, e torna a posse da sua própria casa um sonho fora do alcance da maioria dos americanos.

Os sistemas bancários locais e descentralizados de 100 e 50 anos atrás tinham a vantagem da Diversidade. O colapso de um banco local – mesmo de um bando de Nova Iorque – era ainda um colapso local, e os seus custos eram internos. Mas actualmente nos estamos perante a hipótese do colapso de todo o sistema. Considere-se os milhões de dólares de impostos que são gastos pelo sistema nacional de “National Deposit Insurance” para defender as poupanças e a industria dos empréstimos. E recordemo-nos dos biliões que foram somados à dívida nacional americana de forma a evitar que os grandes bancos abrissem falência quando os países em Desenvolvimento falham no cumprimento dos seus serviços da dívida. Estas falhas sistémicas irão ocorrer cada vez com maior frequência se o controlo económico local não fôr reforçado e a centralização sacrificada.

A situação exige uma reorganização das instituições económicas de miodo a que possam ser mais capazes de responder às necessidades e problemas e necessidades locais. Estas novas instituições devem ser descentralizar o controlo da terra, dos recursos naturais, da industria e do financiamento de modo a servirem as pessoas que vivem na área de uma forma equitativa. É preciso criar uma infraestrutura que encoraje a produção local para as necessidades locais. Associações de posse comum de terra (“Community Land Trusts”), detidas pelos seus trabalhadores e encorajando a autogestão, bancos locais sem intuitos lucrativos e moedas regionais podem ser algumas das ferramentas para construir economias regionais fortes.

 

Como crescemos todos a acreditar que as moedas nacionais eram a norma, a moeda regional é frequentemente uma dessas ferramentas menos compreendidas. Jane Jacobs, no seu livro “Cities and the Wealth of Nations” encara a economia de uma região como uma entidade viva no processo de expansão e contracção e uma moeda regional como o regulador mais apropriado para este fluxo vital. Exactamente como sucede com uma nação, uma região que não produz o número suficiente dos bens que consome acaba por depender fortemente das importações, o que resulta sempre numa moeda que é desvalorizada. Os custos de importação aumentam, a troca de bens é reduzida, e a região é obrigada a “pedir emprestado”, o que significa que exporta o seu capital, e não bens e acaba a importar praticamente tudo o que precisa. Mas se a região é capaz de suprir as suas próprias necessidades, então a sua moeda fortalece-se e mantêm o seu valor em relação a outras moedas. As importações são mais baratas, e o comércio mais equitativo ou reduzido em favor de uma região de “substituição de importações” autoconfiante.

Jacobs descreve as moedas como “poderosos transportadores de informação de retorno… Como poderosos gatilhos de ajustes, mas nos seus próprios termos. Uma moeda nacional regista, acima de tudo, a informação consolidada do comércio internacional de uma Nação.” Este retorno (feedback) informa os responsáveis pela política económica e permite-lhe afinar o rumo. Mas devem as regiões industriais dos Grandes Lagos ou os Estados da “Farm-Belt” ajustar as suas economias na mesma forma que os Estados do Sul ou o Silicon Valley? Uma parte muito significativa de qualquer economia regional é governada por um sistema monetário e bancário onde os membros dessa comunidade têm pouco ou nenhum controlo. A dependência das moedas nacionais retira às regiões uma poderosa forma de auto-regulação e permite a criação de bolsas económicas estagnadas numa nação em prosperidade aparente. O que proposto, em lugar deste estado de coisas é o estabelecimento de um sistema com responsabilidades na e para com a comunidade local.

As moedas regionais não são uma invenção recente: a prática já tem vários séculos de idade. O auto-designado “Free Banking Era” da História dos EUA, quando várias moedas circulavam livremente constribuiu substancialmente para erguer o sonho de Thomas Jefferson de uma nação de pequenos, independentes e autónomos agricultores que encontravam crédito junto dos bancos comunitários para produzir e vender os seus bens. Mesmo nos primeiros anos do século XX os bancos locais emitiam a sua própria moeda, que John Kenneth Galbraith dizia ser determinante para o rápido desenvolvimento da economia americana.

Em que é estes bancos são diferentes dos bancos de hoje? Porque estão localizados em pequenas cidades, os banqueiros conheciam as pessoas com quem estavam a lidar de uma forma muito pessoal e podiam fazer empréstimos na base do “carácter”, e não limitando-se estritamente à base teórica de como um dado indivíduo podia ou não suportar um dado empréstimo. Ao contrário de um banco nacional, que abandona uma região logo que realiza o Valor pretendido, a moeda local só pode circular numa zona regional muito restrita; as moedas locais e o capital local não podem viajar até aos centros financeiros para financiar as operações das corporações multinacionais ou pagamentos de dívidas. As decisões de crédito são feitas por banqueiros locais com um conhecimento da realidade local, dos emprestadores, mas também da sua Região como um todo.

Uma das maiores objecções para o “Free Banking” do Século XIX e do começo do século XX foram os falhanços de alguns desses bancos e a especulação que alguns deles fizeram com terra e com empréstimos improdutivos. O argumento usado por alguns é de que estes abusos poderiam ter sido evitados se tivesse havido um controlo central. Mas o que de facto faltou foi uma crença na responsibilidade na comunidade e vigilância que faltou aqui e não uniformidade… Os bancos de desenvolvimento comunitário como o South Shore Bank de Chicago e o Grameen Bank do Bangladesh são descentralizados e unificados. A descentralização e a diversidade têm o benefício de impedir o colapso em larga escala de um sistema. Isto é verdade não só no mundo bancário, mas também no mundo natural. Pense-se nas sementes. Se muitos tipos diferentes de milho forem plantadas por agricultores diferentes e uma doença atingir a colheita, alguns tipos vão resistir e haverá colheita. Mas se todos os agricultores mudarem para uma nova semente hibrída e uma doença atingir esta colheita, o resultado será um falhanço global. Como podemos garantir a Diversidade na Banca? Como referiu o economista Frederick Hayek, para manter a Banca honesta seria melhor regressar a um sistema bancário que use moedas que compitam entre si em vez de confiar num único sistema central.

Anúncios
Categories: E. F. Schumacher Society, Economia, Quids S2, Websites | 1 Comentário

Navegação de artigos

One thought on “Moedas Locais: Catalisadores para Economias Regionais Sustentáveis (Parte I)

  1. “O auto-designado “Free Banking Era” da História dos EUA, quando várias moedas circulavam livremente constribuiu substancialmente para erguer o sonho de Thomas Jefferson de uma nação de pequenos, independentes e autónomos agricultores que encontravam crédito junto dos bancos comunitários para produzir e vender os seus bens.”

    O grande inimigo do republicanismo agrario do Thomas Jefferson foi o centralizador federalista Alexander Hamilton – fundador do primeiro banco “central” dos EUA – representante do grande capital Nova Iorqueno… Assim o sonho americano se afundou quase logo a partida…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Site no WordPress.com.

Eleitores de Portugal (Associação Cívica)

Associação dedicada à divulgação e promoção da participação eleitoral e política dos cidadãos

Vizinhos em Lisboa

A Vizinhos em Lisboa tem em vista a representação e defesa dos interesses dos moradores residentes nas áreas, freguesias, bairros do concelho de Lisboa nas áreas de planeamento, urbanismo, valorização do património edificado, mobilidade, equipamentos, bem-estar, educação, defesa do património, ambiente e qualidade de vida.

Vizinhos do Areeiro

Núcleo do Areeiro da associação Vizinhos em Lisboa: Movimento de Vizinhos de causas locais e cidadania activa

Vizinhos do Bairro de São Miguel

Movimento informal, inorgânico e não-partidário (nem autárquico independente) de Vizinhos

TRAVÃO ao Alojamento Local

O Alojamento Local, o Uniplaces e a Gentrificação de Lisboa e Porto estão a destruir as cidades

Não aos Serviços de Valor Acrescentado nas Facturas de Comunicações !

Movimento informal de cidadãos contra os abusos dos SVA em facturas de operadores de comunicações

Vizinhos de Alvalade

Movimento informal, inorgânico e não-partidário (nem autárquico independente) de Vizinhos de Alvalade

anExplica

aprender e aprendendo

Subscrição Pública

Plataforma independente de participação cívica

Rede Vida

Just another WordPress.com weblog

Vizinhos do Areeiro

Movimento informal, inorgânico e não-partidário (nem autárquico independente) de Vizinhos do Areeiro

MDP: Movimento pela Democratização dos Partidos Políticos

Movimento apartidário e transpartidário de reforma da democracia interna nos partidos políticos portugueses

Operadores Marítimo-Turísticos de Cascais

Actividade dos Operadores Marítimo Turísticos de Cascais

MaisLisboa

Núcleo MaisDemocracia.org na Área Metropolitana de Lisboa

THE UNIVERSAL LANGUAGE UNITES AND CREATES EQUALITY

A new world with universal laws to own and to govern all with a universal language, a common civilsation and e-democratic culture.

looking beyond borders

foreign policy and global economy

O Futuro é a Liberdade

Discussões sobre Software Livre e Sociedade

%d bloggers like this: