O interceptor alemão Me262

Me262

 A partir da Primavera de 1944 os primeiros escoltadores de longo alcance norte-americanos, os P-51 de que já falámos – superiores a todos os caças convencionais alemães – começaram a acompanhar as vagas de bombardeiros em acção sobre o Reich. Os caça-bombardeiros alemães pesadamente armados para abater os B-17 e B-24 era agora demasiado lentos para enfrentar os P-51, e os interceptores Bf 109 e Fw 190 demasiado ligeiros para os bombardeiros, embora suficiente ágeis para os P-51. O Me 262, que entretanto prosseguia nos seus aperfeiçoamentos, constituía uma solução para este dilema.

Mas o emprego do Me 262 como interceptor ainda não era uma questão pacífica. A 23 de Maio, o perfil do Me 262 voltou a levantar problemas numa reunião entre Goering, Milch, Galland, diversas altas patentes da Luftwaffe, Speer e membros do seus ministério. David Irving, escrevendo sobre essa reunião em Berchtesgaden, diria: “Milch certamente que não suspeitou a tempestade que agora caia sobre ele. Com o Oberst Petersen, director dos estabelecimentos de pesquisa, ele agora juntou-se a Goering e a Speer numa grande sala sem ventilação na casa de Hitler em Berghof, com uma grande janela com vista para os Alpes. Hitler ouviu sem interesse os detalhes sobre o programa de caça, aparentemente olhando para as montanhas, até que o planeamento para o Me 262 foi mencionado. Aqui ele interrompeu; “Eu pensava que o Me 262 seria um bombardeiro de alta velocidade? Quantos dos 262s já fabricados poderão carregar bombas?” Milch disse-lhe: “Nenhum, mein Fuhrer. O Me 262 está a ser fabricado exclusivamente como caça.” Houve um silêncio embaraçoso. Milch explicou que o aviao não podia carregar bombas sem grandes alterações estruturais, e mesmo então nunca mais de 1.100 libras.” “Hitler perdeu a sua compostura. Ele compreendeu que com a Invasão Aliada em França a qualquer momento, o avião maravilha no qual ele tinha depositado grande parte das suas esperanças de a derrotar não poderia possivelmente estar pronto. Ele excitadamente interrompeu Milch, “Nem pensar! Eu só quero uma bomba de 550 lb.” Ele perguntou por estatisticas precisas sobre o peso suportado pela versão de caça – a sua blindagem, armas e munições. “Quem dá a miníma atenção às ordens que eu dou?” Ele exclamou “Dei uma ordem clara, e não deixei em ninguém dúvidas que o avião era para ser equipado como um caça-bombardeiro.” Goering recebeu a tarefa de tornar o Me 262 um caça-bombardeiro operacional no mais curto período de tempo possível, sacrificando se necessário a versão de interceptor. Goering iniciou imediatamente o seu trabalho, constatando que era necessário retirar a maioria da blindagem, adicionar mais tanques de combustível debaixo do assento do piloto e na rectaguarda, para além da óbvia instalação de suportes para bombas. Era muito dificil modificar os aviões já construídos, mas relativamente fácil introduzir essas alterações nas aeronaves a construir. Seguindo as ordens de Hitler, Goering vincou a posição do Fuhrer sobre a questão do perfil do Me 262, num telegrama a Milch datado de 27 de Maio: “O Fuhrer ordenou que o Me 262 devesse entrar em serviço exclusivamente como um bombardeiro de alta velocidade. O avião não deve ser encarado como um caça até nova ordem.” Mas Hitler desautorizaria dias depois Goering ao permitir testes da versão de caça com que condição de que isso não atrasasse o desenvolvimento da versão caça-bombardeiro, mas para Ehrard Milch já era demasiado tarde e acabou por ser afastado das suas funções. Mas estas medidas do Fuhrer já tinham chegado tarde de mais, quando as tropas aliadas desembarcaram na Normandia só 30 Me 262 estavam nas fileiras na Luftwaffe e nenhum dos seus pilotos tinham ainda completado o seu programa de treino. A transformação do Me 262 num caça-bombardeiro que entretanto decorria não estava a ser fácil como parecera inicialmente a Goering, mas finalmente o décimo protótipo construído do aparelho assumia o perfil de um caça-bombardeiro. Tinham sido instalados dois suportes para bombas de 550 libras sobre o nariz do aparelho, dos quatro canhões MK 108 só restavam dois, mas a modificação estruturalmente mais importante era a colocação de um tanque de combustível na rectaguarda. Esta modificação obrigava a que o seu combustível fosse consumido tão depressa quanto o possível. Se as bombas fossem largadas com o tanque ainda cheio o avião tornava-se perigosamente instável. Outra dificuldade com a versão caça-bombardeiro advinha do desenho muito liso do avião, o que fazia com que em mergulho se atingissem grandes velocidades o reduzia as possibilidades do piloto de apontar correctamente a trajectória o que era agravado pela impossibilidade do piloto de ver imediatamente por baixo de si. Mas os primeiros testes revelaram que em ataques horizontais e mergulho a baixa altitude o avião podia ser um adversário temível. Mas estas limitações eram importantes, e Hitler tinha disso consciência, como se mostra pelo teor de uma conferência que ocorreu a 25 de Junho, em que Albert Speer afirmaria: “O Fuhrer afirmou de novo, durante uma reunião com o Reichsmarschall (Goering) o seu inálteravel pedido para a imediata produção de bombardeiros a jacto. Até que o 234 pudesse ter a produção assegurada, a produção de série do 262 devia ser acelerada tanto quanto o possível e ele devia tornar-se disponível para essa finalidade…” A primeira unidade operacional equipada com a versão de caça-bombardeiro do Me 262 foi o Erprobungskommando Schenk, formado em Lechfeld com elementos da Kampfgeschwader 51. A 20 de Julho, a unidade era transferida para Chateaudun perto de Orleans em França, com os seus nove aviões comandados pelo Major Wolfgang Schenk. A 20 de Julho, a unidade era enviada para Chateaudun perto de Orleans. Foi a partir daqui que lançaram as suas primeiras missões. As fontes aliadas omitem totalmente a sua presença, o que se deve ao fraco impacte que tiveram as suas intervenções. Com efeito, dos dirigentes alemães não acreditavam que o desembarque na Normandia fosse o principal, que esperavam para Calais e assim a EG Schenk recebeu ordens para não atacar abaixo dos 13.000 pés, como os pilotos não tinham meios para atacar com precisão a essa altitude, a sua eficiência foi muito baixa. Entretanto, a situação em França degradava-se progressivamente. A 15 de Agosto a unidade – agora designada como 1º Gruppe da Kampfgeschwader 51 – era transferida para Creil e a 28 para Chiévres, na Bélgica. Foi nesse dia que os interceptores P-47 aliados contactaram pela primeira vez com o Me 262. No final da tarde o Major Joseph Myers do 78º Grupo de Caça avistou um dos rápidos caça-bombardeiros. Os resultados recolhidos pela KG 51 permitiram concluir que a eficiência do caça-bombardeiro era aproximadamente a mesma do FW 190 nesse papel, adicionalmente, a sua alta velocidade tornava-o a plataforma adequada para ataques a baixas altitudes devido à superioridade aérea aliada. Mas quando entraram em acção pela primeira vez os Me 262 da KG 51 tinham ordens estritas para não atacar abaixo dos 13.000 pés (para os impedir de serem abatidos e de cairem em mãos inimigas), esta limitação reduziu tanto a eficiência dos seus ataques que a sua intervenção passou despercebida ao comando aliado. Ocorreram alguns ataques a canhão contra tropas aliadas no solo, mas a maioria dos pilotos não acreditava na eficiência deste modo de ataque porque o canhão MK 108 tinha uma velocidade tão baixa que os ataques tinham ser conduzidos a menos de 1.300 pés de altitude e os seus 360 tiros disponíveis para atingir com eficiência o alvo. A grande velocidade, a pouca manobralidade e até a falta de blindagem frontal suficiente eram outros factores que contribuiram para a pouca populariedade deste modo de ataque.

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Categories: As "Armas Secretas" da Alemanha Nazi, Ciência e Tecnologia, Defesa Nacional, Economia, História | Deixe um comentário

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