Daily Archives: 2006/09/17

Morangos com Açúcar: “somos-todos-a-favor-do-diálogo”

“A hierarquia sumiu-se no interior destas famílias. O modelo é o do pai e mãe género “somos-todos-a-favor-do-diálogo”. Não há regras, apenas sentimentos. Deste mundo, desapareceram ainda o praze da aprendizagem, a ânsia de afirmação e a necessidade de estudar. Ninguém lê, ouve música séria ou discute temas interessantes. Estamos entre lupens intelectuais. Do ponto de vista social, há poucas diferenças: ao pretender que a série seja vista pelo maior número possível de jovens, a estação optou por incluir, lado a lado, “betos” e “dreads”. Basta reparar nos nomes das personagens – ao lado das Matildes, Constanças e Marianas surgem as Carlas, Vânias e Jessicas – para se perceber que a convivência é deliberadamente interclassista.”

Escreve Maria Filomena Mónica numa contundente frase sobre a imensamente popular série da TVI “Morangos com Açúcar”.

Fonte: Revista Atlântico, nº 17

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Categories: A Escrita Cónia, Sociedade Portuguesa | 3 comentários

Quids S3-11: Quem fez este desenho?

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Dificuldade: 5

Categories: Ecologia, Quids S3 | 6 comentários

A Bomba Atómica da Alemanha Nazi

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Figura: A fábrica de Água Pesada de Vemork.

Nos anos que se seguiram à derrota alemã surgiram várias notícias em jornais que afirmavam que as armas atómicas usadas em Hiroshima e Nagasaki tinham sido concebidas não nos EUA mas na Alemanha, e daqui levadas depois para os EUA depois da derrota alemã. Escrevera-se também então que uma fábrica desses engenhos tinha sido construída pelas SS na ilha dinamarquesa de Bornholm e estava prestes a entrar em funcionamento quando a guerra terminou.

O próprio Hitler afirmara que uma super-arma estava praticamente pronta. A partir de 1945 a utilização de uma bomba atómica alemã é, sem dúvida, a arma secreta em que Hitler deposita maiores esperanças e nos últimos dias da guerra, altos oficiais nazis foram de casa a casa em Munique espalhando a mensagem que uma bomba atómica estava prestes a ser utilizada. Segundo lhe diziam os cientistas alemães estavam mais avançados nesse domínio que os seus colegas norte-americanos e ingleses. E de facto, Otto Hahn descobrira o fenómeno da cisão nuclear em 1938, consolidando essa liderança. Mas já em 1937 esse investigador publicara material sobre o assunto, material que chegara às mãos dos cientistas britânicos e americanos, contribuindo para recuperarem um atraso, que de outro modo não lhes permitir aprontar uma bomba atómica em 1945, conforme conseguiria o Projecto Manhattan. Otto Hahn soubera desde o princípio que a sua descoberta da fissão do urânio podia levar à construção de uma bomba atómica. Depois de capturado pelos aliados e de saber do uso de uma arma desse tipo em Hiroshima confidenciaria aos seus colegas de cativeiro que quando constatara dessa possibilidade ficara vários dias sem dormir e que tinha inclusivamente ponderado o suicídio. Foi durante o mês de Setembro de 1939 que a Divisão de Pesquisa do Arsenal do Exército liderada por Erich Schumann investigou a possibilidade de construção de bombas e reactores nucleares, possibilidade que parecia concretizável depois da acima mencionada descoberta da Fissão do Urânio, assim a primeira medida para a sua construção passou pela total proibição da exportação de urânio da Alemanha. Esta proibição decorrera da escassez do minério que a Alemanha enfrentava. Na época, a fonte mais importante era o Congo Belga, fora da alçada alemã, mas quando a Bélgica foi invadida em 1940, todo o urânio aí armazenado caiu em mãos alemãs. Meses antes, em Abril, a Noruega tinha também ela sido ocupada, trazendo também para a Alemanha o acesso à Companhia Hidro-eléctrica de Vermork, a única unidade europeia de produção de deutério, também conhecido como Água Pesada. O deutério devia agir como moderador da reacção atómica no seu reactor experimental. Esta substância, que retardava a velocidade dos neutrões no seio do reactor tinha uma alternativa, a grafite, substância que aliás seria usada pelos americanos na construção do seu primeiro reactor pelo físico italiano Enrico Fermi em Chicago quando corria o ano de 1942. Os investigadores alemães tinham contudo desprezado desde o início da grafite porque os cálculos do professor Bothe da Universidade de Heidelberg feitos em 1940 tinham-nos levado a crer que não funcionaria, daí a opção pela Água Pesada.

 

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Figura: Fotografia do Ferry norueguês que transportava o carregamento de Água Pesada para a Alemanha.

A maior parte da pesquisa nuclear básica era realizada no Instituto Kaiser Wilhelm em Berlim e na sua filial de Leipzig. Era em Leipzig que fora construído o primeiro reactor nuclear alemão. Tratava-se de um reactor primitivo, concebido apenas como uma máquina experimental para recolher dados que permitissem a construção de um modelo funcional, onde a fissão teria lugar pela primeira vez, visto que esse não era o objectivo desse reactor “intermédio”. Em Maio de 1942, os técnicos do projecto consideraram estar já na posse dos elementos suficientes para avançar no projecto. O relatório chegou às mãos do OKW, que se convenceu que seria possível dispôr de uma bomba atómica no final do ano. Interrogados os cientistas nucleares sobre o peso que teria o engenho estes indicaram que seria um engenho grosseiro com cinco toneladas de peso e mais de 7.2 metros de comprimento. Para um engenho destas dimensões seria preciso um avião muito especial. Na época a Luftwaffe só possuía no seu inventário dois bombardeiros capazes de a transportar, o Focke Wulf Kondor e o Heinkel He 177, como o Kondor tinha sido concebido como um avião de reconhecimento e ataque marítimo não tinha grande capacidade de transporte de bombas, pelo que o He 177 era a única verdadeira opção. No Verão de 1942 foi seleccionado um desses aparelhos, que seria convertido na fábrica Heinkel de Praga, removendo-se as suas asas e aumentando o porão das bombas. O bombardeiro nunca abandonaria este estado, acabando por ser parcialmente destruído num bombardeamento, nunca havendo a necessária vontade para proceder à sua reparação. A asa voadora Horten Ho XVIII – que nunca sairia da fase de desenho – também estaria destinada a transportar uma ogiva nuclear, mas essa referência permanece por confirmar.

 

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Figura: Vemork depois de bombardeada pela RAF.

Nos começos de 1942 a liderança nazi decidiria que o esforço para construir uma única bomba era tão pesado que não seria possível produzi-la durante a guerra, pelo que o projecto recebeu uma baixa classificação de prioridade e se manteve descentralizado em vários institutos de investigação. Em Junho de 1942, o reactor de Leipzig explodia. Cumulativamente, diversos institutos envolvidos no projecto nuclear eram atingidos na grande série de bombardeamentos que os aliados lançaram sobre a Alemanha nesse mês. O projecto começava a sofrer os seus primeiros atrasos sérios. A inexistência de uma direcção central dificultava os esforços de recuperação e a baixa prioridade impedia qualquer aumento dos financiamentos. Para retardar ainda mais o andamento do projecto, a grande reestruturação que o projecto sofreu em 1942 implicaria a quase total paragem das pesquisas atómicas na Alemanha enquanto esta progredia. O avanço alemão na área nuclear tinha sido decididamente perdido. Mas o grande revez do projecto alemão ocorreu a 16 de Fevereiro de 1943 quando foram lançados seis paraquedistas sobre um lago gelado da Noruega. Estes resistentes tinham sido especialmente treinados para o bom sucesso da sua missão: Tratava-se de uma tentativa orquestrada pelos serviços secretos britânicos tendo em vista destruir a fábrica de água pesada de onde se iniciaria o processo de produção da bomba atómica alemã. A operação tinha recebido o nome de código Gunnerside e foi, dias mais tarde, reforçada com quatro outros resistentes da anterior Swallow, cujos objectivos, semelhantes, haviam sido frustados. Desta vez, os comandos conseguiram iludir a vigilância dos guardas alemães e fazer explodir a fábrica. O sucesso da missão foi ainda reforçado pelo facto de nenhum dos resistentes ter sido capturado: um deles, armado e fardado, chegou à Suécia neutral, os outros nove comandos permaneceram na Noruega, onde, escapando a diversas rusgas alemãs, conseguiram evitar a captura até ao fim da Guerra. Um outro golpe sério no programa de produção de água pesada foi dado a 16 de Novembro de 1943. Nesse dia de Inverno, 160 bombardeiros norte-americanos, descolando das suas bases na Grã-Bretanha, atacaram a central eléctrica e a fábrica de água pesada de Vermok. Durante o ataque foram mortos vinte civis noruegueses que trabalhavam na fábrica. Esta não foi destruída, mas sofreu danos tão sérios na sua central de energia que os alemães foram levados a abandonar a fabricação de água pesada no local. Os stocks que até então tinham sido constituídos deveriam ser transportados até à Alemanha, essa informação chegou às mãos da resistência norueguesa que se apressou a passá-la até aos Serviços Secretos Britânicos. Começou então a planificação de uma operação que visava a destruição completa desses stocks durante o seu transporte. Esses planos foram executados a 20 de Fevereiro de 1944, quando o ferry que transportava todas as reservas existentes de água pesada através do lago Tinnsjo, a caminho da Alemanha, explodiu. Do incidente, executado pela resistência norueguesa e planeado a partir de Londres resultou a morte de 4 militares alemães e de 14 civis noruegueses tripulantes do navio. Apesar do preço pago em vidas inocentes, o plano alemão de produção de uma bomba atómica sofria então um duro golpe. O reduzido número de baixas alemãs deve-se a uma opção tomada deliberadamente, optando pela descrição no transporte com uma pequena escolta, em lugar de uma grande escolta que daria inevitavelmente nas vistas. De qualquer modo, o tranporte acabou mesmo por tornar-se conhecido dos aliados invertendo a suposta eficácia do método alemão. Assim se explica como um ferry que podia ter virado curso da guerra estava tão mal guardado. Mas a destruição do carregamento de água pesada norueguesa não terminou a produção da bomba atómica nazi. Os Aliados, com efeito, souberam pela captura de alguns documentos alemães em Estrasburgo, que a fábrica Auer de Oranienburg dedicava-se ao processamento do minério de Urânio. O bombardeamento da unidade foi logo considerado um objectivo prioritário e encetadas as diligências para o início dos bombardeamentos.

No início de 1944 existiam na Alemanha dez locais envolvidos no projecto atómico, a maioria em zonas submetidas a intensos bombardeamentos aliados. Em resposta, foi decidido concentrar o grosso da pesquisa nuclear nos arredores de Estugarda, uma cidade que não tinha alvos importantes, e que não tinha sido grandemente afectada pelos raids aliados. Foi assim que se escolheram os arredores da cidade de Haigerloch, um local entre duas altas montanhas, impossível de atacar através do ar. Nos finais de Fevereiro o reactor estava pronto – esperava-se – a produzir uma reacção atómica sustentada. Cubos de urânio suspendidos por fios foram colocados num contentor. Uma fonte de neutrões foi colocada no centro do reactor e a Água Pesada foi lentamente vasada para o contentor, enquanto a actividade dos neutrões era cuidadosamente medida. Contudo, a esperada reacção não teve lugar. Quando se estudava o que havia falhado, os aliados vencem o Reno e os soviéticos o Oder. O caos reina numa Alemanha já completamente derrotada, deixando os investigadores alemães completamente parados até ao dia 23 de Abril quando a região foi ocupada pela infantaria norte-americana. Pouco depois chegava uma unidade especial do exército americano que recolhia todos os cientistas, documentos e equipamento do projecto atómico e os transportava para o outro lado do Atlântico. Foi assim que a 15 de Março de 1945, poucos meses antes do final da guerra foi vibrado o golpe decisivo sobre os projectos nucleares da alemanha nazi. Bombardeiros americanos entraram em acção, sob pedido urgente do general Leslie R. Groves, o responsável máximo do “projecto Manhattan” (encarregue da produção da bomba atómica norte-americana). Mais de mil e trezentas toneladas de bombas explosivas e incendiárias foram lançadas sobre a fábrica de tratamento de Tório de Oranienburg. O sucesso foi quase completo, resultando na destruição total da parte emersa das instalações, o que resultou na paragem imediata do produção da bomba atómica alemã. Mas embora a capacidade produtiva de urânio enriquecido e de água pesada alemães tivesse sofrido um rude golpe, os aliados receavam que antes de consumada essa destruição os alemães tivessem podido acumular materias-primas em número suficiente que lhes tivesse permitido construir pelo menos uma bomba atómica.

 

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Figura: Diagrama do reactor experimental de Haigerloch.

Esses receios, a 12 de Abril de 1945, vieram a revelar-se infundados. Com efeito, nesse dia, em Stadtlim, perto de Erfurt, os soldados americanos apoderaram-se de uma das duas baterias de água pesada alemãs cuja existência era conhecida. Pelo seu estado ainda incipiente e artesanal era evidente que não haveria uma bomba atómica alemã antes do termo do conflito. Em Abril de 1945 não restavam à Alemanha fábricas ou nenhuns dos recursos fabulosos necessários à produção de plutónio, aliás, mesmo que os possuísse, onde se poderiam realizar as experiências? Quase todo o território do Reich havia sido já ocupado. Com o aproximar do fim da Segunda Guerra Mundial, os Aliados, que conheciam com perfeição os locais onde, na Alemanha, se investigava a desintegração do núcleo atómico, procuravam ganhar para cada um deles, o manancial de conhecimentos atómicos reunidos pelos cientistas alemães. É assim que encontramos a declaração feita por Churchill em 18 de Abril de 1945 de que se devia obter o “controlo sobre a região de Estugarda antes de esta ser ocupada pelos franceses”. Era nesta região que se encontravam as principais instalações nucleares alemães, as Tube Alloys, na sua própria expressão, continuando: “e seria bom, dado o secretismo que rodeia a matéria, que nós nos apoderássemos delas”. Mas o maior e mais organizado esforço de “saque” ao projecto nuclear alemão partiu dos EUA, que mesmo antes do fim do conflito criaram a missão Alsos com o único objectivo de conduzir a recolha de informação e material sobre a pesquisa atómica na Alemanha e nos países ocupados.

Apesar do avanço que a tecnologia de foguetes alcançou na Alemanha nazi é curioso que nunca tenha ocorrido a nenhum membro do grupo de Peenemunde, nem aos cientistas do projecto atómico fazer transportar uma bomba atómica num míssil até ao seu alvo. Talvez porque o projecto nuclear nunca avançou além das experiências preliminares, talvez porque o peso estimado para o engenho estivesse muito além da capacidade do único míssil operacional, o A-4 (V-2), com efeito as bombas do Projecto Manhattan pesavam 4 toneladas, muito para além da efectiva capacidade do A-4 e mesmo do poderoso A-10 ainda em fase de projecto.

Categories: As "Armas Secretas" da Alemanha Nazi, Economia, História | 6 comentários

A Religião Cónia: O Culto Solar

Os escudos redondos seriam (segundo Varela Gomes) uma representação do disco solar. O escudo seria uma imagem solar que o guerreiro transportaria consigo no combate e de cuja protecção dependeria. Esta interpretação do arqueólogo português concorda com a interpretação que J. Déchelette já tinha proposto em 1909 para as representações deste tipo que frequentemente podem ser encontradas em objectos rituais da Idade do Bronze e do Ferro e que mercê das suas reduzidas dimensões não podiam ter utilidade militar.

Escavações em curso desde Setembro de 2001, conduzidas pelo arqueólogo David Calado, permitiram descobrir em Bensafrim e Odiáxere (Lagos) três menires datados dos finais do IV e princípios do V milénio. Estes menires gravados, descobertos na Quinta Queimada foram colocadas num quadrilátero de vinte metros quadrados e foram classificados pelo arqueólogo como pertencentes à “Cultura neolítica da Baixa de Lagos”, aparentada, por sua vez, à “Cultura neolítica do Golfo de Cádiz”. Estes menires apresentam figuras solares, e montículos, provavelmente representações de seios femininos, um carácter sexual que não é raro encontrar na cultura megalítica e que é reforçado pela aparição de uma vulva num desses menires, assim como pela forma declaradamente fálica de um outro, descoberto em Figueiral (Bensafrim). Ora, é precisamente em Bensafrim que foi encontrada, escavada e investigada uma das maiores necrópoles cónias e uma das que mais estelas inscritas deu a conhecer. A aparição destes menires esculpidos numa região tão próxima pode permitir revelar alguns traços da religião das populações que precederam a civilização cónia e que a podem ter influenciado profundamente.

O culto solar estava directamente ligado com a aplicação do Poder político, como se depreende da associação do guerreiro com o Sol e com a continuação desta ligação com a administração local durante o período romano, conforme nos testemunham os restos epigráficos desse período.

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