Biografia de E. F. Schumacher

por Nancy Jack Todd, extraído de
People, Land and Community: The Collected E. F. Schumacher Society Lectures
copyright 1997

traduzido com a autorização da “E. F. Schumacer Society”

De acordo com o “The London Times Literary Supplement” de 6 de Outubro de 1995, “Small Is Beautiful” de E. F. Schumacher está classificado entre os cem livros mais influentes publicados desde a Segunda Grande Guerra. A selecção foi feita por um grupo de escritores e académicos que procuravam criar um “Mercado Comum da Mente” para estabelecer uma ponte entre as divisões culturais da Europa do Pós-Guerra. Entre estes nomes encontram-se os de Simone de Beauvoir, André Malraux, Albert Camus, George Orwell, Jean-Paul Sartre, Hannah Arendt, Carl Gustav Jung, e Erik Erikson. Embora menos académico que muitos dos seus outros trabalhos, Small Is Beautiful: Economics As If People Mattered referiu-se com uma extraordinária precisão a muitos dos principais temas com que lidávamos no final do século. Desde a sua publicação em 1973 que a obra foi traduzida para cerca de 20 línguas diferentes.

O economista E. F. Schumacher era um homem alto com uma longa sombra, particularmente no reino das Ideias. À época da sua morte em 1977 ele era classificado como “um profeta resistindo contra a maré” e “um homem que coloca as perguntas certas à sua sociedade e a todas as sociedades num momento crucial da sua História”. Estas afirmações permanencem válidas. Num ambiente de crescente frequência dos “takeover hostis” nas grandes corporações e no uso crescente do termo “downsizing” que originalmente se referia a reduzir o tamanho de carros e agora se usa e abusa no despedimento de pessoal, neste contexto, a compaixão inerente a “uma Economia como se as pessoas importassem” é cada vez mais atraente. Oposta ao consumo excessivo de materiais, crescimento sem sentido, dominação pelas grandes empresas, e sistemas económicos de escala mundial, Shumacher estaria satisfeito por ver como as suas ideias, têm ganhado impulso à medida que passam os anos, e criaram um movimento significativo para contraiar a presente dinâmica dominada pelo GATT.

O génio particular do pensamento de E. F. Shumacher residiu na sua união do teórico com o prático, englobando a rara combinação de uma epistemologia e um sentido pragmático raros. Ele era também um homem profundamente espiritual e com um forte amor e compreensão pelo mundo natural. Embora seja um nome conhecido na Europa desde o final da Segunda Grande Guerra, foi somente com a publicação americana de “Small is Beautiful” que o seu trabalho foi divulgado nos EUA. No momento da sua morte prematura em 1977 o seu nome era reconhecido através dos Estados Unidos e do Canadá e o professor já se tinha encontrado com um número significativo de figuras conhecidas, incluindo o antigo presidente Carter.

A vida de E. F. Schumacher reflectiu directamente os acontecimentos dos primeiros três quartos do século passado. Ele foi, paradoxalmente, um homem muito dentro e muito para além do seu tempo. Como Lewis Mumfords, ele criticava a aceitação irreflectida da inovação tecnológica mascarada como “progresso”, alertando contra as perdas individuais e locais de autonomia e de qualidade de vida. Schumacher, conhecido como “Fritz” pelos seus amigos, nasceu numa família de tradição académica de Bona, Alemanha, em 1911. De acordo com a sua filha, Barbara Wood, na sua biografia E. F. Schumacher: His Life and Thought demonstrou ser, desde cedo, um aluno rápido e talentoso, e em 1930 ele seria escolhido para representar a Alemanha em New College, Oxford. Dois anos mais tarde ele faria a sua primeira viagem à América, onde descobriu uma liberdade intelectual que desconhecera até então. Em 1934, contudo, uma ansiedade crescente sobre a ascendência do Nacional Socialismo na Alemanha, fê-lo deixar uma carreira promissora em Nova Iorque e regressar a casa. A situação local confirmou os seus piores receios. Muitas das pessoas que ele mais respeitava, compreensívelmente intimidada, estavam a fechar os olhos aos demónios que os rodeavam. No coração da sua oposição aos nazis estava a sua rejeição à manipulação da Informação e sua flagrante violação da verdade. Com profunda tristeza, em 1936, deixaria a Alemanha com a sua nova esposa e estabeleceu-se em Inglaterra, o país que passaria a considerar com a sua nova pátria.

A partir de então, quer directamente, quer indirectamente, ele participou nos acontecimentos do seu tempo. Com outros expatriados alemães ele desesperou com o destino do seu país e da Europa. Assim que a Guerra começou, dominado pelo sentimento anti-nazi, Schumacher, foi transferido para o campo para trabalhar como trabalhador rural. A um dado momento foram-lhe retiradas a mulher e filha e conheceu um internamento de 3 meses num Campo de Detenção, onde fez várias alterações no Campo para melhor o sistema sanitário e a qualidade da comida. Mais tarde ele consideraria este período no Campo como sendo a sua verdadeira universidade.

Depois de ter sido libertado do Campo, preocupado com a questão dos pré-requisitos para uma paz duradoura no Europa. Os seus escritos sobre o assunto despertaram a atenção a um número de pessoas proeminentes, e cedo surgiram debates sobre a economia do Pós Guerra. Depois de se tornar um cidadão britânico em 1946, ele foi enviado para a Alemanha como membro da “British Control Commission”.

Na reflexão sobre a reconstrução da indústria alemã, as suas ideias sobre o que era apropriado – uma palavra que seria depois associada consigo – em termos de escala e propriedade começaram a ganhar forma. À medida que estudava a reestruturação da economia alemã, o papel estratégico da energia, o seu pensamento consolidou-se. Ficou igualmente convencido da necessidade da reforma monetária como um meio de prevenir a concentração da riqueza entre um pequeno número às custas da maioria, outro dos legados que continuam muitos vivos no movimento actual para restabelecer as moedas locais.

Nos finais de 1949 Shumacher foi convidado a assumir o papel de conselheiro económico do “National Coal Board” da Grã-Bretanha. Shumacher aceitou o cargo e permaneceu no cargo de “Chief Economic Advisor” durante os vinte anos seguintes. Para acomodar a sua família crescente comprou uma casa com um grande jardim em Surrey. Isto haveria de revelar-se um ponto de viragem para o seu pensamento; ficou fascinado com o jardim e tornou-se um fervoroso adepto da “jardinagem orgânica”. Observando os processos naturais do seu jardim, Shumacher desenvolveu uma compreensão nova da complexidade inter-relacional dos sistemas vivos. Mais tarde, sobre a Tese Gaia escreveria: “Faz sentido que a Natureza seja um sistema incrivelmente complexo e auto-balanceado no qual o uso do conhecimento parcial pode fazer mais mal do que bem. Tanto quanto posso ver, a agricultura química chegou aos seus limites. Trabalha contra a Natureza em lugar de trabalhar com ela.” Em Small Is Beautiful escreveria: “o habitat humano alargado, longe de ser humanizado e enobrecido pelo homem e pelas suas actividades humanas, tornou-se degradante pela fealdade.”

Uma das maiores influências no pensamento de Schumacher foi o trabalho de um economista austríaco pouco conhecido de nome Leopold Kohr. No seu Breakdown of Nations Kohr trata o tema da Escala, atribuindo os males do mundo moderno à grandeza da escala. Escreve a dado ponto, Kohr: “Se uma sociedade cresce acima do seu tamanho óptimo, os problemas vão eventualmente acabar por ultrapassar o crescimento das faculdades humanas que são necessárias para lidar com eles”. Shumacher haveria de se referir a Kohr como “um professor de quem aprendi mais do que qualquer outro”.

Shumacher interessou-se pelos sábios Budistas e Taoístas e impressionou-se pela mensagem não-violenta de Mahatma Gandhi. Em 1955 Shumacher recebeu uma proposta da ONU para trabalhar na Myanmar (então “Birmânia”), tendo ficado fascinado pela cultura local. Impressionado com a capacidade da cultura budista em produzir uma libertação do Materialismo com uma aparente felicidade, reforçou a sua inclinação para olhar para além da abstração económica e escreveria: “A Economia significa uma certa forma de ordenar a vida de acordo com uma filosofia inerente e implícita em Economia. A ciência económica não assenta sobre os seus próprios pés: ela deriva de uma visão do significado e propósito da vida…”

Profeticamente, acrescentaria ainda: “Uma civilização constuída sobre recursos renováveis, como os produtos da floresta e da agricultura, é apenas por esse facto superior a uma outra construída sobre recursos não-renováveis, como o Petróleo, o Carvão, o Metal, etc. Isto é assim porque a primeira pode resistir ao tempo, e a segunda, não. A primeira coopera com a Natureza, enquanto que a segunda rouba a Natureza. A primeira carrega o símbolo da Vida, enquanto que a segunda carrega o símbolo da Morte.”

Mais tarde, num dos seus ensaios mais conhecidos, defendera uma forma budista de Economia baseada na “Forma de Vida Correcta” do “Nobre Caminho Óctuplo” budista. Fundamental a este novo sistema económico seriam a simplicidade e a não-violência, a importância da Comunidade e a necessidade e dignidade do Trabalho. Schumacher regressaria de Myanmar convencido que era necessário encontrar uma forma sustentável de Economia como um caminho possível para o Mundo em Desenvolvimento, um “caminho intermédio entre o materialismo irracional e a imobilidade tradicional”. Shumacher dedicaria o resto da sua vida na busca desta via alternativa.

Shumacher foi igualmente visionário na sua análise do mundo industrial. Em 1958, antes da fundação da OPEP e recebendo muitas críticas dos seus colegas economistas, alertaria a Europa Ocidental para “uma posição de dependência máxima do Petróleo do Médio Oriente… As implicações políticas desta situação era demasiado óbvias para exigir discussão.” Ainda maior era a sua preocupação sobre os conflitos que podiam desencadear uma Guerra Nuclear. Tornou-se num ardente opositor da Energia Nuclear. A acumulaão de grandes quantidades de resíduos tóxicos, declarou: “é uma transgressão contra a vida, ela própria, uma transgressão infinitamente mais séria que qualquer outro crime jamais prepertado…” Influenciado pela filosofia não-violenta de Ghandi escreveria ainda: “Uma forma de vida que esvazia cada vez mais depressa a Terra para se sustentar e acumula um número crescente de problemas cada vez mais insolúveis para as próximas gerações só pode ser chamada de Violenta… A Não-violência deve penetrar em todas as actividades do Homem, se a Humanidade quer estar segura contra uma Guerra de Aniquilação“.

Em 1961, Schumacher fez a sua primeira exposição na Índia sobre a pobreza flagrante neste subcontinente. Shumacher acreditava que a causa desta pobreza moral e física residia no impacto desmoralizador do Ocidente Industrializado nas cultura tradicionais, até então, auto-suficientes. O que era necessário, sublinhou, era um nível de tecnologia mais produtivo e eficiente que utilizasse a técnicas tradicionais em áreas rurais, de uma forma mais simples e menos intensiva em termos de Capital que as tecnologias ocidentais. O conceito de “tecnologia intermédia” começou então a ganhar forma.

A ideia de “Tecnologia Intermédia” foi imediatamente adoptada por um dos seus colegas académicos, um escoçês de nome George McRobie, que seria mais tarde o principal responsável pelo desenvolvimento do conceito. O primeiro artigo de Shumacher sobre “Tecnologia Intermédia” apareceu no jornal britânico “The Observer” em 1965 e receberia um acolhimento entusiástico. Ele e McRobie responderiam formando um pequeno grupo, auto-financiado que seria conhecido com o ITDG (“Intermediate Technology Development Group”), que trataria de realizar pesquisa sobre o tipo de equipamentos que poderiam ser disponibilizados a agricultores de pequena escala e a artesãos. Rápidamente, o grupo elaborou um “Guia de Compras”. Era intenção de Schumacher combinar conhecimentos tradicionais e avançados para criar novas tecnologias que respondessem a questão de impacto e escala. O ITDG cresceu rápidamente em resultado do grande interesse que despertou na comunidade e em todo o mundo. A “Tecnologia Intermédia” foi identificada como uma ferramenta inovadora para abordar e resolver os problemas da Pobreza no mundo. Schumacher foi reconhecido como uma figura de impacto internacional e tornou-se o embaixador da “Tecnologia Intermédia” por todo o mundo.

Schumacher acreditava que era vital que os pobres fossem capazes de se ajudarem a si próprios e que a Tecnologia Intermédia os pudesse a realizar essa necessidade. Viajou por todo o mundo, defendendo as vantagens do seu conceito junto de empresas, em seminários e fábricas. As tecnologias e estruturas comunitárias por ele antevistas produziriam autonomia material em vez de excesso e seriam uma fonte de Trabalho, o qual ele considerava ser necessário para que alguém atingisse a plena humanidade. De novo profético, nas suas visões, convenceu-se que a afluência de emigrantes ao Ocidente não poderia ser mantida indefinidamente e tentou ensinar o conceito de que a esperança para o fim da Pobreza residia na capacidade dos pobres se declararem indepentes da dinâmica corporativa.

Com a publicação de “Small Is Beautiful” em 173, o estaturo de E. F. Shumacher transformou-se no de uma espécie de “guru da Economia”. Realizou várias viagens à América do Norte, onde, especialmente entre os jovens, as suas palavras conheceram grande acolhimento. A sua mensagem não-violenta de “Tecnologia Intermédia” e “Economias de Escala” foi encarada como aplicável ao Mundo Ocidental assim como às ainda não-industrializadas do planete. Schumacher escreveria nesta fase da sua vida: “As palavras-chave da Economia Violenta são Urbanização, Industrialização, Centralização, Eficiência, Quantidade, Velocidade… O problema de evoluir para uma vida económica não-violenta nos países subdesenvolvidos pode revelar-se idêntico ao de evoluir para esta forma de economia os países desenvolvidos.”

Schumacher alertou as pessoas para que fossem constantemente observadores e questionadoras sobre aquilo que as rodeava, sem olharam apenas para a Tecnologia e para a Economia. Alertou-nos para a necessidade de observar com a maior honestidade a fundação e escala e a civilidade das nossas vidas, a nossa vitalidade, integridade, e riqueza espiritual. Shumacher estava envolvida numa busca de uma vida, raramente assentado numa única resposta mas procurando longamente e diligentemente pelos meios mais inteligentes, adaptáveis e sustentáveis que nos permitissem conduzir as nossas vidas como pessoas e como parcelas da própria Natureza.

A biblioteca pessoal de E. F. Schumacher’s está conservada no Schumacher Center e o seu catálogo pode ser consultado on-line.

Fonte: http://www.schumachersociety.org/about/biographies/schumacher_full_bio.html

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Categories: Budismo, E. F. Schumacher Society, Economia, Política Nacional, Quids S2, Sociedade, Websites, Wikipedia | 9 comentários

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9 thoughts on “Biografia de E. F. Schumacher

  1. Não conhecia nem nunca li nada dele. Fiquei curioso e vou procurar o Small Is Beautiful. Quem sabe tenha algumas respostas para muitas das minhas duvidas sobre este sistema económico que não respeita nem o homem nem o mundo onde ele vive. Obrigado pela informação
    aum abraço

  2. é do cruzamento do pensamento deste economista com o pensamento político e visionário de agostinho da silva que alicerço as minhas ideias políticas e económicas nem-esquerda/nem-direita, nem-estatizantes/nem-neoliberais.

    podes contar com mais artigos e traduções sobre a obra e o pensamento de E. F. Schumacher…

  3. Sapateiro Volante

    http://www.f22-raptor.com/

    “Air power is indivisible. If you split it up into compartments, you merely pull it to pieces and destroy its greatest asset – its flexibility.
    – Field Marshal Bernard Montgomery

  4. como escreveu um teórico qualquer da estratégia militar (romano?): “marchar dividido, atacar concentrado”.

    mas quando o nível ou escala (usando o termo schumachariano) ultrapassa certo patamar o efeito ou eficácia (termo tão adulado hoje em dia) desce a níveis abaixo do “óptimo”. Isto é, seria possível gerir p.ex. o ataque “concertado” de 100 mil guerreiros persas contra os 20 mil macedónios de Alexandre? A História mostrou que não… Frequentemente, quando a Escala Económica ou Militar envolvida é demasiado grande, surgem os erros, acumulam-se os desperdícios, nascem as ineficiências e… desumaniza-se a Guerra e a Economia, como demonstra a Actualidade…

  5. Hum… Estratégia militar aqui pelo meio…

    Fizeste bem em publicar este artigo de alguém que parece ser outro dos orientadores da tua linha filosófica. Gostei destas ideias que, infelizmente, brotam num mundo demasiado lamaçento…

    Abraço

  6. sabes que as noções de Estratégia Militar podem permear toda os ramos da vida, e especialmente a económica… Olha por exemplo, o “marcha dividido e ataca concentrado” não se pode aplicar a quase tudo na vida?

    e esta biografia de Shumacher é mais um pequeno passo de um caminho que pretendo prosseguir na divulgação da obra do professor e da sua similutude com os conceitos descentralizadores de Agostinho…

  7. sa morais

    – Já assim falava Sun Tzu…

    – Força!

  8. sun tzu: cuja obra “a arte da guerra” tem sido usada e abusada por uns quaisqueres ignotos “gurus da gestão”, ao que creio (e nem quero saber)…

  9. Luiz Puech

    Prezado Rui: vejo-o engajado no estudo de caminhos alternativos para a organização humana. Também eu o estou, daqui do Brasil, desgraçadamente perdido em querelas de centro-esquerda que não mais interessam e que não irão levar a nada mais do que trocas de grupos no comando do sistema. Vc faz parte de alguma instituição que desenvolve estudos nesse sentido ou luta solitário, como eu, que daqui dos parcos metros quadrados do meu escritório estou ousando dar forma a uma nova ciência globalizada..(essa é boa, para mexer com os brios desses “estudiosos de plantão”) sem fronteiras de conhecimento, a que dou o nome de GH – GeoHumanismo. Gostaria de ouvi-lo e iniciar uma troca de idéias. Muito grato, Luiz de Rezende Puech. P.S.: estou traduzindo o “Buddhist Economics” do Shumacher.

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