Sobrevivência das populações cónias na actual população portuguesa

Não é possível que a etnia que durante séculos habitou todo o sul do território português tenha desaparecido sem deixar na genética da actual população portuguesa qualquer vestígio. A inferior densidade demográfica que sempre caracterizou os territórios a sul do Tejo é um testemunho bastante elucidativo da inexistência de grandes invasões, com massas demográficas esmagadoras que tenham massacrado ou absorvido completamente as populações locais. Fenícios e gregos, embora tenham estado nesta região, nunca a colonizaram e a sua presença limitou-se a umas dezenas de indivíduos isolados nas feitorias costeiras, sem penetrações significativas ou permanentes no interior. Mais tarde, os romanos haveriam de apreciar esta região, construindo aqui várias villas e cidades na confluência de rotas comerciais terrestres, quase sempre sobre ou nos arredores de povoados indígenas, mas também com Roma, não houve uma verdadeira colonização, nem tão pouco haveria com os invasores muçulmanos. Sabe-se que os iemenitas, árabes e sírios ocupavam nas hostes muçulmanas posições de destaque, posições que também desempenhariam nas cidades islâmicas até à época da Reconquista Cristã. Mas estas etnias eram largamente minoritárias junto dos invasores muçulmanos, sendo que a sua esmagadora maioria era formada por populações berberes do Marrocos e da Argélia actuais. Estas populações norte-africanas, que se viriam a misturar facilmente com as populações indígenas eram oriundas da mesma matriz étnica dos indígenas, razão pela qual a sua integração seria tão fácil e natural. Mas todos estes invasores não destruíram significativamente a matriz étnica local e é essa que é possível ainda hoje observar em Alcácer do Sal. Data de 1956 a publicação de um curioso estudo: “Mulatos no Concelho de Alcácer do Sal – subsídios para definição étnica das gentes do vale do Sado” da autoria de Manuel Gaio Tavares de Almeida. Neste texto, o autor escrevia assim: “Segundo me parece e pude depreender dos documentos consultados, os ‘carapinhas do Sado’ são o resíduo de uma raça oriunda de África que, não tendo representado, em épocas passadas, qualquer influência de ordem sociológica ou considerável peso demográfico mas apenas algum valor de ordem económica, vem em tempos modernos, por ironia do destino, a revestir-se de particular interesse”. E ainda: “Na verdade, por muito estranho que possa parecer, este núcleo de gente teve já certa relevância internacional, prendendo não só as atenções mas chegando a ser usado como argumento nas teses de certos doutrinados racistas que não perderam a oportunidade de apontar a chamada ‘zona negra do Sado’ como índice e justificação plausível da tese da origem negróide dos portugueses” Nesta raça – e que tem exemplos na minha própria família – sobreviveria ainda hoje um traço desta população pré-indoeuropeia. Algo que, aliás, já o conhecido historiador Oliveira Martins havia defendido na sua “História da Civilização Ibérica” ao encontrar nos Cabilas da Argélia a matriz étnica original dos portugueses. Admitindo a tese deste historiador, os chamados “carapinhas do Sado” seriam os últimos sobreviventes destas populações indígenas, sobrevivendo através de milénios de invasões sucessivas vindas do norte, leste e sul, que, não sem haverem sofrido cruzamentos étnicos, haviam ainda mantido alguns traços distintivos originais e tipicamente africanos, tais como a tez escura da sua pele e o cabelo encarapinhado que caracteriza as populações africanas. É claro que a tese africana da origem dos portugueses colide que as teses que pretenderam fazer de nós povos celtas ou “arianos” (Leite de Vasconcelos) ou ainda povos semitas (Moisés Espírito Santo). A tese “africana” colhe contudo fortes argumentos da arqueologia pré-histórica do nosso território e até na genética (Cavalli-Sforza) e confere em absoluto com este estranho fenómeno étnico que são os “carapinhas do Sado”.

Com efeito, C. Sforza afirma no seu basilar livro “The History and Geography of Human Genes” que se uma língua pode desaparecer em apenas três gerações, geralmente em consequência de uma invasão em que um grupo numericamente reduzido de guerreiros impõe a sua cultura e língua às massas dominadas; esse grupo minoritário não pode fazer desaparecer os genes do grupo majoritário e estes podem ser observador durante dezenas de milhares de anos, muito para além da data máxima de sobrevivência de qualquer língua humana.

A tabela que Cavalli-Sforza apresenta sob o número 2.3.1.A “Genetic Distances between the 42 Populations” uma reveladora tabela que apresenta numerosos dados sobre as distâncias genéticas entre povos tão diversos como os Bantu e os Esquimós. Aqui, interessam-nos sobretudo os berberes, os bascos, os sardos, os gregos e os italianos. Todos estes povos são provavelmente testemunhos modernos da existência do Substrato Mediterrâneo resultante das migrações paleolíticas dos Capsenses. Não nos interessando todos os dados desta tabela, apresentemos somente aqueles que respeitam ao nosso tema:População:

  • População: Populações que lhe são próximas:
  • Berberes Ingleses (44); Dinamarqueses (61); Italianos (51); Gregos (69)
  • Bascos Ingleses (21); Dinamarqueses (34); Gregos (50); Sardos (55)
  • Sardos Gregos (30); Italianos (35); Ingleses (59); Dinamarqueses (61)
  • Gregos Italianos (34); Iranianos (70)
  • Italianos Ingleses (51); Dinamarqueses (72); Gregos (77)

Na tabela 2.3.1.B, Cavalli-Sforza apresenta ainda dados genéticos complementares da tabela 2.3.1.A:

  • População: Populações que lhe são próximas:
  • Berberes Ingleses (8); Italianos (9); Bascos (10); Dinamarqueses (10); Gregos (12); Iranianos (14)
  • Bascos Italianos (4); Ingleses (4); Dinamarqueses (6); Gregos (8); Sardos (11)
  • Sardos Gregos (5); Italianos (10); Ingleses (14); Dinamarqueses (14)
  • Italianos Ingleses (11), Dinamarqueses (13); Gregos (13)

Destes dados genéticos se pode concluir da efectiva proximidade entre estas populações mediterrâneas, nomeadamente entre Berberes, Italianos, Gregos e Sardos. Aqui também se observa um fenómeno que pode parecer estranho a quem conheça a posição de distanciamento tipológico entre os bascos e as demais populações europeias e que é a apresentação de proximidades entre estes e dinamarqueses e ingleses, algo que contudo pode ser explicado por serem todas elas populações periféricas, habitando ou em ilhas (locais onde a pureza genética resiste com mais intensidade às vagas de invasores). A proximidade constatada entre Berberes e Ingleses oferece alguma força às teses de Lewis Spence e à tese da origem mediterrânea comum quando se observa a sua proximidade em relação a gregos e italianos.

Categories: A Escrita Cónia | 1 Comentário

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One thought on “Sobrevivência das populações cónias na actual população portuguesa

  1. ferreira

    caso nao saibas essa zona do sado foi residencia pa muitos escravos negros após a sua libertação daí a população dessa zna ter traço negros

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