Portugal é, de todos os cantos da Península, o único que tem verdadeiramente génio político

“Portugal é, de todos os cantos da Península, o único que tem verdadeiramente génio político, talvez, de todas as gentes que falam latim pelo mundo, o único real herdeiro do povo romano.”

“Só que, por fatalidade, e logo desde o começo, faltou a Portugal para uma plena acção, a companhia e a integração do seu complemento natural para os lados do Norte. A acção de Portugal no Brasil não teria sido o que foi, apesar de toda a actuação do minhoto nas gerais, garantindo um Brasil interior, ou do transmontano sobre o Prata, garantindo afinal a fronteira do Oeste, se não tivesse havido o bandeirantismo dos seus alentejanos e, indirectamente, as suas guarnições algarvias para o Sul; a gente mais ou menos mourisca para o Sul do Tejo, a gente já de falar crioulo, os que vinham do deserto e de seu gosto aventureiro e livre, serviram de complemento aos de Entre-Minho-e-Tejo, verdadeira base de Portugal, o Portugal da gente que finca pé na terra e obriga a terra a dar tudo o que tem, metal ou seiva, ou isso mesmo, base a conto de lança. Mas, para o norte, a Galiza não estava. Não estava a Galiza, que para empregar as palavras do dito popular em que se define a casa bem governada, podia ter arcado enquanto Portugal barcava. Com o tal galego “sórdido”, no sentido camoniano, talvez o ouro da Índia e Brasil tivesse dado maior proveito e se não tivesse, em plena época de afluxo de riquezas, de fazer aportar ao Tejo frotas de cereal para pão.”

Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa: Agostinho da Silva

Nesta citação Agostinho exprime que é cerne da sua explicação sobre a situação eterna e permanente de Portugal: a de surgir ao longo da História como um país em crise económica e social permanente, vivendo sempre sobre a linha de água e revelando-se incapaz de alcançar o mesmo grau de desenvolvimento dos seus pares europeus. Mesmos os governantes mais “providenciais” que tentam levar o país para o lugar que lhe é devido no concerto das nações europeias falham, e são afastados pelas forças que agindo na sombra empurram Portugal para o atraso endémico que tem caracterizado toda a sua História. As fortunas geradas pela Pimenta das Índia esfumam-se em bens sumptuosos e luxos comprados no Norte da Europa, onde se gera a verdadeira riqueza comprada a sangue de português derramado na longa “Torna Viagem” para as Índias, o Ouro e o Diamante do Brasil do séc. XVIII desaparecerem nos entrepostos de Amsterdão sendo trocados por igrejas e palácios desmesurados enquanto o resto do país vegeta na mais absoluta das misérias; as colónias africanas, mantidas a preço de sangue contra os apetites de aliados boçais ou de esfaimados germânicos, ficam improdutivas, despovoadas e esfumam-se rápidamente num processo de descolonização apressado e precipitado. Mais recentemente, Portugal (de Cavaco a Guterres) malbarata uma torrente de recursos superior à que chegava nas naus da Índia e nas fragatas do Brasil em betão e alcatrão, consente na assassina “Tercialização” comandada pelos Senhores do Norte da Europa e reduz-se a um papel cada vez mais secundário numa União Europeia que é cada vez mais o Império dos Grandes contra os Pequenos.

 

Toda este Falhanço resulta – para Agostinho da Silva – da ausência em Portugal de sua parte fundamental, sita a norte do Minho, na Galiza. Sem a Galiza, Portugal será sempre aquilo a que chamam “Estado Falhado”, porque Nação incompleta ou de coração dividido. Com a Galiza, Portugal seria um novo Estado, enfim completo e reunido, uma Portugaliza, reunindo em si, o espírito “aventureiro e livre” do Sul com a “gente que finca pé” do Minho e Trás-os-Montes e que entra com esse espírito resiliente e produtor pela Galiza dentro.

Categories: Movimento Internacional Lusófono | 2 comentários

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2 thoughts on “Portugal é, de todos os cantos da Península, o único que tem verdadeiramente génio político

  1. obuz

    Sim… eu também nos vejo amputados. Mas não só da Galiza. No séc. XV a Igreja amputou-nos de parte da nossa população, os mouros e os judeus. Onde andam esses portugueses? Foram estes judeus portugueses que já no séc. XVII ajudaram D. João IV com remessas de dinheiro, contactos diplomáticos e contactos com armeiros. Foram estes que nos ajudaram a reganhar a independência! Nós sem os nossos mouros e judeus começámos a declinar e estamos onde estamos hoje! Na cauda da Europa. POrtanto, também estamos amputados de parte do nosso povo, já que parte dos portugueses foram obrigados a abandonar a sua pátria para sempre.

  2. Assino por baixo de tudo o que se disse até aqui.

    abraço.

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