Daily Archives: 2006/06/17

Portugal é, de todos os cantos da Península, o único que tem verdadeiramente génio político

“Portugal é, de todos os cantos da Península, o único que tem verdadeiramente génio político, talvez, de todas as gentes que falam latim pelo mundo, o único real herdeiro do povo romano.”

“Só que, por fatalidade, e logo desde o começo, faltou a Portugal para uma plena acção, a companhia e a integração do seu complemento natural para os lados do Norte. A acção de Portugal no Brasil não teria sido o que foi, apesar de toda a actuação do minhoto nas gerais, garantindo um Brasil interior, ou do transmontano sobre o Prata, garantindo afinal a fronteira do Oeste, se não tivesse havido o bandeirantismo dos seus alentejanos e, indirectamente, as suas guarnições algarvias para o Sul; a gente mais ou menos mourisca para o Sul do Tejo, a gente já de falar crioulo, os que vinham do deserto e de seu gosto aventureiro e livre, serviram de complemento aos de Entre-Minho-e-Tejo, verdadeira base de Portugal, o Portugal da gente que finca pé na terra e obriga a terra a dar tudo o que tem, metal ou seiva, ou isso mesmo, base a conto de lança. Mas, para o norte, a Galiza não estava. Não estava a Galiza, que para empregar as palavras do dito popular em que se define a casa bem governada, podia ter arcado enquanto Portugal barcava. Com o tal galego “sórdido”, no sentido camoniano, talvez o ouro da Índia e Brasil tivesse dado maior proveito e se não tivesse, em plena época de afluxo de riquezas, de fazer aportar ao Tejo frotas de cereal para pão.”

Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa: Agostinho da Silva

Nesta citação Agostinho exprime que é cerne da sua explicação sobre a situação eterna e permanente de Portugal: a de surgir ao longo da História como um país em crise económica e social permanente, vivendo sempre sobre a linha de água e revelando-se incapaz de alcançar o mesmo grau de desenvolvimento dos seus pares europeus. Mesmos os governantes mais “providenciais” que tentam levar o país para o lugar que lhe é devido no concerto das nações europeias falham, e são afastados pelas forças que agindo na sombra empurram Portugal para o atraso endémico que tem caracterizado toda a sua História. As fortunas geradas pela Pimenta das Índia esfumam-se em bens sumptuosos e luxos comprados no Norte da Europa, onde se gera a verdadeira riqueza comprada a sangue de português derramado na longa “Torna Viagem” para as Índias, o Ouro e o Diamante do Brasil do séc. XVIII desaparecerem nos entrepostos de Amsterdão sendo trocados por igrejas e palácios desmesurados enquanto o resto do país vegeta na mais absoluta das misérias; as colónias africanas, mantidas a preço de sangue contra os apetites de aliados boçais ou de esfaimados germânicos, ficam improdutivas, despovoadas e esfumam-se rápidamente num processo de descolonização apressado e precipitado. Mais recentemente, Portugal (de Cavaco a Guterres) malbarata uma torrente de recursos superior à que chegava nas naus da Índia e nas fragatas do Brasil em betão e alcatrão, consente na assassina “Tercialização” comandada pelos Senhores do Norte da Europa e reduz-se a um papel cada vez mais secundário numa União Europeia que é cada vez mais o Império dos Grandes contra os Pequenos.

 

Toda este Falhanço resulta – para Agostinho da Silva – da ausência em Portugal de sua parte fundamental, sita a norte do Minho, na Galiza. Sem a Galiza, Portugal será sempre aquilo a que chamam “Estado Falhado”, porque Nação incompleta ou de coração dividido. Com a Galiza, Portugal seria um novo Estado, enfim completo e reunido, uma Portugaliza, reunindo em si, o espírito “aventureiro e livre” do Sul com a “gente que finca pé” do Minho e Trás-os-Montes e que entra com esse espírito resiliente e produtor pela Galiza dentro.

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Categories: Movimento Internacional Lusófono | 2 comentários

Porque é que a flor de Lótus surge frequentemente na iconografia budista?

Quando Buda alcançou a Iluminação sob a árvore de Bodhi (aliás Bodhi quer dizer "Iluminação" e provém da mesma raíz que a palavra "Buddah") hesitou sobre se deveria partilhar o caminho que leva à Iluminação com os outros Homens. Buda sabia que os Homens, sempre imersos na ignorância e nas paixões, teriam grandes dificuldades em compreender o Caminho (Dharma). Mas então, segundo a Tradição, surgiu-lhe Brama, que lhe disse para não guardar para si o Dharma, mas que espalhasse a sua mensagem pelos Homens. Buda então imaginou os seres humanos como a flor de lótus que flutua sobre a superfície do pântano, que apenas precisa de um pequeno impulso para ascender à superfície das águas lodosas e ver a luz do Sol. De igual modo, os Homens precisam também de um pequeno empurrão para alcançar a Iluminação e ver a luz da Verdade. É por causa da importância desta analogia na mensagem de Buda que a flor de Lótus surge com tanta frequência na iconografia budista e porque Buda surge sentado sobre a mesma flor.

Categories: Budismo, Política Nacional | 4 comentários

da Euforia para a Depressão, e vice-versa. Ad Aeternum

Portugal é um país mentalmente doente, ou melhor dizendo um país neurótico, a precisar de doses massivas de Lítio.

Oscilamos entre a Euforia e a Depressão, rápidamente e com grande empenho. Aos festivais de Verão sucessivos, concorrentes e realizados em plena época de Exames (e que tal medir o seu impacto nos resultados escolares?) sucede-se agora a euforia do Mundial, alimentada atè à exaustão por todos os Media, de permeio, surgem as incontornáveis notícias sobre a Recessão, o crescimento do Desemprego e das Taxas de Juro.

E assim vai isto, de Euforia para a Depressão, e vice-versa. Ad Aeternum.

Categories: A Escrita Cónia, Sociedade Portuguesa | 6 comentários

Sobrevivência das populações cónias na actual população portuguesa

Não é possível que a etnia que durante séculos habitou todo o sul do território português tenha desaparecido sem deixar na genética da actual população portuguesa qualquer vestígio. A inferior densidade demográfica que sempre caracterizou os territórios a sul do Tejo é um testemunho bastante elucidativo da inexistência de grandes invasões, com massas demográficas esmagadoras que tenham massacrado ou absorvido completamente as populações locais. Fenícios e gregos, embora tenham estado nesta região, nunca a colonizaram e a sua presença limitou-se a umas dezenas de indivíduos isolados nas feitorias costeiras, sem penetrações significativas ou permanentes no interior. Mais tarde, os romanos haveriam de apreciar esta região, construindo aqui várias villas e cidades na confluência de rotas comerciais terrestres, quase sempre sobre ou nos arredores de povoados indígenas, mas também com Roma, não houve uma verdadeira colonização, nem tão pouco haveria com os invasores muçulmanos. Sabe-se que os iemenitas, árabes e sírios ocupavam nas hostes muçulmanas posições de destaque, posições que também desempenhariam nas cidades islâmicas até à época da Reconquista Cristã. Mas estas etnias eram largamente minoritárias junto dos invasores muçulmanos, sendo que a sua esmagadora maioria era formada por populações berberes do Marrocos e da Argélia actuais. Estas populações norte-africanas, que se viriam a misturar facilmente com as populações indígenas eram oriundas da mesma matriz étnica dos indígenas, razão pela qual a sua integração seria tão fácil e natural. Mas todos estes invasores não destruíram significativamente a matriz étnica local e é essa que é possível ainda hoje observar em Alcácer do Sal. Data de 1956 a publicação de um curioso estudo: “Mulatos no Concelho de Alcácer do Sal – subsídios para definição étnica das gentes do vale do Sado” da autoria de Manuel Gaio Tavares de Almeida. Neste texto, o autor escrevia assim: “Segundo me parece e pude depreender dos documentos consultados, os ‘carapinhas do Sado’ são o resíduo de uma raça oriunda de África que, não tendo representado, em épocas passadas, qualquer influência de ordem sociológica ou considerável peso demográfico mas apenas algum valor de ordem económica, vem em tempos modernos, por ironia do destino, a revestir-se de particular interesse”. E ainda: “Na verdade, por muito estranho que possa parecer, este núcleo de gente teve já certa relevância internacional, prendendo não só as atenções mas chegando a ser usado como argumento nas teses de certos doutrinados racistas que não perderam a oportunidade de apontar a chamada ‘zona negra do Sado’ como índice e justificação plausível da tese da origem negróide dos portugueses” Nesta raça – e que tem exemplos na minha própria família – sobreviveria ainda hoje um traço desta população pré-indoeuropeia. Algo que, aliás, já o conhecido historiador Oliveira Martins havia defendido na sua “História da Civilização Ibérica” ao encontrar nos Cabilas da Argélia a matriz étnica original dos portugueses. Admitindo a tese deste historiador, os chamados “carapinhas do Sado” seriam os últimos sobreviventes destas populações indígenas, sobrevivendo através de milénios de invasões sucessivas vindas do norte, leste e sul, que, não sem haverem sofrido cruzamentos étnicos, haviam ainda mantido alguns traços distintivos originais e tipicamente africanos, tais como a tez escura da sua pele e o cabelo encarapinhado que caracteriza as populações africanas. É claro que a tese africana da origem dos portugueses colide que as teses que pretenderam fazer de nós povos celtas ou “arianos” (Leite de Vasconcelos) ou ainda povos semitas (Moisés Espírito Santo). A tese “africana” colhe contudo fortes argumentos da arqueologia pré-histórica do nosso território e até na genética (Cavalli-Sforza) e confere em absoluto com este estranho fenómeno étnico que são os “carapinhas do Sado”.

Com efeito, C. Sforza afirma no seu basilar livro “The History and Geography of Human Genes” que se uma língua pode desaparecer em apenas três gerações, geralmente em consequência de uma invasão em que um grupo numericamente reduzido de guerreiros impõe a sua cultura e língua às massas dominadas; esse grupo minoritário não pode fazer desaparecer os genes do grupo majoritário e estes podem ser observador durante dezenas de milhares de anos, muito para além da data máxima de sobrevivência de qualquer língua humana.

A tabela que Cavalli-Sforza apresenta sob o número 2.3.1.A “Genetic Distances between the 42 Populations” uma reveladora tabela que apresenta numerosos dados sobre as distâncias genéticas entre povos tão diversos como os Bantu e os Esquimós. Aqui, interessam-nos sobretudo os berberes, os bascos, os sardos, os gregos e os italianos. Todos estes povos são provavelmente testemunhos modernos da existência do Substrato Mediterrâneo resultante das migrações paleolíticas dos Capsenses. Não nos interessando todos os dados desta tabela, apresentemos somente aqueles que respeitam ao nosso tema:População:

  • População: Populações que lhe são próximas:
  • Berberes Ingleses (44); Dinamarqueses (61); Italianos (51); Gregos (69)
  • Bascos Ingleses (21); Dinamarqueses (34); Gregos (50); Sardos (55)
  • Sardos Gregos (30); Italianos (35); Ingleses (59); Dinamarqueses (61)
  • Gregos Italianos (34); Iranianos (70)
  • Italianos Ingleses (51); Dinamarqueses (72); Gregos (77)

Na tabela 2.3.1.B, Cavalli-Sforza apresenta ainda dados genéticos complementares da tabela 2.3.1.A:

  • População: Populações que lhe são próximas:
  • Berberes Ingleses (8); Italianos (9); Bascos (10); Dinamarqueses (10); Gregos (12); Iranianos (14)
  • Bascos Italianos (4); Ingleses (4); Dinamarqueses (6); Gregos (8); Sardos (11)
  • Sardos Gregos (5); Italianos (10); Ingleses (14); Dinamarqueses (14)
  • Italianos Ingleses (11), Dinamarqueses (13); Gregos (13)

Destes dados genéticos se pode concluir da efectiva proximidade entre estas populações mediterrâneas, nomeadamente entre Berberes, Italianos, Gregos e Sardos. Aqui também se observa um fenómeno que pode parecer estranho a quem conheça a posição de distanciamento tipológico entre os bascos e as demais populações europeias e que é a apresentação de proximidades entre estes e dinamarqueses e ingleses, algo que contudo pode ser explicado por serem todas elas populações periféricas, habitando ou em ilhas (locais onde a pureza genética resiste com mais intensidade às vagas de invasores). A proximidade constatada entre Berberes e Ingleses oferece alguma força às teses de Lewis Spence e à tese da origem mediterrânea comum quando se observa a sua proximidade em relação a gregos e italianos.

Categories: A Escrita Cónia | 1 Comentário

A Morte de Zarqawi e a descida “lógica” do preço do petróleo

Parece que logo que se soube da morte de Zarqawi os preços do petróleo para baixo dos 70 dólares. É evidente que a sua morte não devia racionalmente influenciar minimanente os preços do crude… Desde logo porque as exportações dos oleodutos iraquianos estão interrompidas desde há muito… E não será reaberto por causa da morte de Zarqawi no dia seguinte… Então porque desceram os preços? Optimismo frente a um eventual decréscimo da actividade rebelde no Iraque? Optimismo imbecil! Porque acreditar que a morte de um impopular líder de um grupo de umas poucas centenas de homens podem influir algo entre os 40 ou 50 mil insurgentes do Iraque…

Mas também se a Bolsa fosse um mundo racional… Não seria a Bolsa, esse grande cancro das economias modernas.

Categories: Economia, Política Internacional, Sociedade, Websites | Deixe um comentário

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