Sarsfield Cabral: “Ordenados Escandalosos”

Na revista Visão de 18 de Maio surge uma interessante coluna de opinião de Sarsfield Cabral, um economista com cujas posições discordo geralmente mas que desta vez se dedicou a escrever sob o título "Ordenados Escandalosos":

Eis algumas frases:

"Em 1973 o vencimento médio de um presidente executivo de uma empresa americana era 27 vezes maior do que o salário médio de um trabalhador. No ano 2000 já era 300 vezes superior."

(…)

"Ora a explosão dos vencimentos dos gestores tem pouco a ver com a produtividade das empresas. Por vezes tem mesmo efeitos negativos. Por exemplo, boa parte desse dinheiro é constituída por acções da própria empresa, que os gestores podem adquirir a um preço fixo. Daí decorre, com frequência, um incentivo para fazer subir as cotações da empresa a curto prazo, em detrimento de um crescimento mais sadudável a longo prazo.

Acresce que ois contratos de muitos gestores incluiem chorudas indemnizações para o caso dos accionistas decidirem correr com eles, por estarem insatisfeitos com os maus resultados da empresa."

(…)

"Assim não é de estranhar que o Wall Street Journal, que não é propriamente de esquerda, tenha publicado no fim de Abril um artigo de opinião criticando os ganhos milionários dos gestores do BCP."

(…)

"Mas em Portugal o problema não se limita ao caso isolado de um Banco. No ano passado, com a economia nacional quase estagnada, os vencimentos dos administradores das grandes empresas portuguesas subiram 8%. E os gestores das empresas cotadas na bolsa portuguesa ganharam, em média, mais do que os seus congéneres espanhóis… Há qualquer coisa que não bate certo."

Existe nas sociedades contemporâneas uma tendência muito marcada para o acentuar da força dos executivos e líderes de empresas, à custa da influência dos trabalhadores. Na equação outrora equilibrada entre Capital (e seus representantes) e Trabalho, a balança pende agora exageradamente para o lado do Capital. Os direitos laborais evaporam-se todos os dias, a inépcia e lentidão dos Tribunais contribuem para a situação, e o próprio quadro legal evoluiu no sentido da total abolição dos direitos laborais.

No meio disto tudo, parece evidente a necessidade de quebrar este ciclo vicioso de aumentos crescentes dos vencimentos dos gestores e tornar a ligar este crescimento ao seu desempenho e ao desempenho das suas próprias empresas… Este desligamento pode aliás ser uma causa silenciosa para o baixo desempenho da nossa economia nos últimos anos… Isto é, porque se hão-de esforçar os nossos gestores, se os seus rendimentos sobem ao mesmo tempo que as suas empresas abrem falência, despedem pessoal e apresentam maus resultados?

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Categories: A Escrita Cónia, Sociedade Portuguesa | 8 comentários

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8 thoughts on “Sarsfield Cabral: “Ordenados Escandalosos”

  1. não sei se estarei errado…mas, parece-me que esses indivíduos se assemelham a proxenetas…

  2. Sobre este assunto, transcrevo aqui a situação da TAP.

    “Fernando Pinto e a sua equipa – Michael Conolly, Luiz Gama Mór e Manoel Torres – custam à TAP 2,1 milhões de euros por ano, só em vencimentos, rendas de casa e prémio anual de gestão.

    Sim, porque para além de auferirem um salário mais de três vezes e meia superior ao do Presidente da República, os quatro gestores brasileiros vão receber 600 mil euros de prémio – o equivalente a seis meses de salários -, pelo facto da companhia ter apresentado lucros em 2003 (19,7 milhões), pouco importa se à custa de resultados extraordinários.

    Segundo o DN apurou, a TAP, que convém lembrar é uma empresa de capitais públicos, gasta 1,3 milhões de euros por ano em vencimentos dos gestores brasileiros, o que dá uma média mensal de 23 200 euros a cada um. Só para se ter uma ideia, o salário-base do Presidente da República não chega a sete mil euros – mais precisamente 6897,97 euros,

    Como se não bastasse, a TAP ainda paga as rendas de casa. No total, são mais 200 mil euros por ano, o que resulta numa média de quatro mil euros por mês a cada um. Uma regalia que não se estende aos gestores portugueses da empresa, embora os seus vencimentos sejam consideravelmente mais baixos. O presidente da companhia, António Cardoso e Cunha, ganha 7800 euros por mês, cerca de três vezes menos do que Fernando Pinto, que é o administrador-delegado. Por sua vez, os salários dos administradores Fernando Santos e António Pinto não vão além dos 6500 euros.

    Nenhum deles recebe subsídio para renda de casa, nem tem direito a qualquer prémio ao fim do ano. Ao contrário dos colegas brasileiros, que vão dividir um bolo de 600 mil euros, cerca de 150 mil euros a cada um. Logicamente, a divisão não será equitativa, cabendo a Fernando Pinto a maior fatia, mas o que releva salientar é que cada um vai receber mais meio ano de salários. Ou seja, com vencimentos, renda de casa e prémio, cada um dos gestores brasileiros aufere aproximadamente 525 mil euros por ano, o que eleva o salário mensal (14 meses) para 37 500 euros.

    É interessante notar que os responsáveis máximos da manutenção e do handling (assistência em escala), Ângelo Esteves e Jorge Sobral, respectivamente, não têm direito a prémio algum. E, como ficou confirmado na apresentação à imprensa, na última quinta-feira, dos resultados da companhia em 2003, aquelas foram as únicas áreas de negócio da TAP que não precisaram de resultados extraordinários para apresentarem resultados líquidos positivos (DN 2/4/04). Como foram também as únicas que aumentaram os resultados operacionais face a 2002. Já na actividade do transporte aéreo, da responsabilidade de Fernando Pinto, deu-se o inverso, o que fez com que, no consolidado, os 40 milhões de resultados extraordinários acima do previsto tivessem tido um impacto nos resultados líquidos de apenas 7,7 milhões face aos 12 milhões orçamentados.

    Mesmo assim, Fernando Pinto defende o «bom desempenho» da companhia, num «ano terrível» para o sector, o que atribui à sua «experiência como piloto». Uma experiência que de pouco lhe valeu quando presidente da Varig”.

  3. Olá rui.
    Há anos que falamos de crise mas ao mesmo tempo vemos as nossas maiores empresas aumentarem os seus lucros e 20, 30 ou 40% ao ano. A banca é poupada nas taxas dos impostos, faz as aldrabices que quer e aumenta lucros. Eu só vejo crise para quem trabalha por conta de outros, senão vejamos; se uma empresa aumenta os seus lucros em 30% só pode aumentar os seus funcionários em 1 ou 1,5%. Não foi o seu trabalho que lhes permitiu aumentar os lucros. Enquanto este capitalismo não tiver um contraponto estaremos sempre em crise.
    um abraço

  4. pmsap

    KAOS:

    Seu raciocínio não está de todo certo. O aumento de lucros em percentagem não tem nada a ver com o aumento de ordenados em percentagem, mas sim em valor absoluto global… Vamos supor que uma empresa tinha 1 euro de lucro e no ano seguinte 1,30. O lucro aumentou 30%, que tem isso a ver com os ordenados das pessoas?

  5. bem, os ordenados devem estar indexados ao aumento de produtividade… serem proporcionais, quero eu dizer. Não devem estar ligados ao Lucro das empresas, embora acredite que uma parcela deste deve ser sempre repartida em “prémios de produtividade” quando alcança certos patamares.

  6. Pegaso

    O problema é que não podemos competir no mercado global com paises como china.Porque a china não tem um estado social não tem reformas não subesidos de desemprego não tem normas de trabalho horarios. Por isso este retroceso no plano social europeu e por arrasto portugal.

  7. Pegaso

    Isto que se passa com a banca vai se passar com a segurança social a nivel global porque cada vez a menos trabalhadores no activo.Tem de começar a pensar que “maquinas” também tem que fazer descontos para a segurança social. por cada “maquina” x ou y tem tem descontar dertiminado valor igual aquele que descontariar pelo mesmo numero de empregados que tinha sem eesa “maquina”. Esse é o principio do Sumonismo.

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