A Escrita Cónia: Os Cónios, Tartéssicos e Turdetanos, um mesmo povo? E a questão da designação da Escrita Sud-Lusitânica

“Segundo o Itinerário de Antonino Pio, o território dos cónios era separado daquele ocupado pelos Turdetanos pelo rio Guadiana, ocupando os cónios a margem ocidental e os Turdetanos a oriental. Beja e Mértola eram habitadas por Turdetanos, assim como Myrtillis, Balsa e Ossonoba, no litoral, do Guadiana ao Cabo Espichel. A este juntava-se aquela que era provavelmente a capital do território, mercê da importância económica e do seu posicionamento geográfico, Imperatoria Salatia (a actual cidade e sede de concelho Santiago do Cacém). Esta profunda penetração de populações Turdetanos no seio da “terra cónia” é um dos maiores argumentos a favor da identidade entre Cónios e Turdetanos. Algo que aliás, está bastante claro nos autores clássicos, sobretudo no que respeita à cidade de Balsa. Com efeito, se Ptolomeu (2, 5, 2) e Marciano (2, 13) a classificam apenas como uma “cidade turdetana”, Mela (3, 7) vai mais longe e indica claramente que estaria situada no “ager Cuneus” (“Terra Cónia”).Alguns historiadores espanhóis já tentaram classificar as inscrições sud-lusitânicas encontradas no território português (com penetrações até ao sul de Espanha) no universo das inscrições tartéssicas do Levante Espanhol. A designação “escrita turdetânica” foi também ensaiada, mas sem conseguir recolher grande adesão, especialmente entre nós. Quanto à inclusão das inscrições sud-lusitânicas nessa esfera tartéssica, encontramos num autor espanhol, Juan Carlos Alonso uma indicação sobre a área geográfica efectiva do “Império” de Tartessos: “a monarquia da cidade de Tartessos, homónima do rio, compreendia toda a actual Andaluzia mais a província de Múrcia e ocasionalmente o sul de Portugal; dominaram a costa desde Lisboa até Cartagena. Ao norte mantiveram fixas as suas fronteiras com os celtas (Cempsii) na barreira natural de Sierra Morena. (…) No Oeste, o sul de Portugal (Os Cinetes) permanecia unido a Tartessos, mais por laços comerciais que por submissão.” Desta citação ressalta a referida intenção de integrar o Cyneticum dentro do âmbito do Império Tartéssico, algo que não encontra nenhuma substância em textos clássicos ou em testemunhos arqueológicos, para além dos naturais paralelismos e contactos entre populações fronteiriças que mantinham sólidos e intensos laços comerciais. Este suposto “império” Tartéssico nunca encontrou nenhuma prova presencial no território nacional, e aliás, a prova disso mesmo está no emprego da expressão: “ocasionalmente o sul de Portugal”. Estrabão, na Geografia III (1, 6) afirma que os Turdetanos são considerados os mais cultos de todos os iberos. Diz o autor, que conheciam a escrita e possuíam, inclusivamente, testemunhos do seu antigo passado: crónicas históricas, poemas e leis em verso, que afirmavam ser de uma antiguidade de seis mil anos. Acrescenta ainda que “as suas cidades são numerosíssimas, pois dizem ser duzentas. As mais importantes por seu tráfego comercial são as que se acham junto aos rios, nos estuários ou junto ao mar.” Não se tratavam obviamente de duzentas grandes cidades, aliás, a maioria destas não deveria agrupar mais do que uma ou duas dezenas de famílias, à semelhança dos povoados cónios encontrados no Alentejo e no Algarve por Caetano Beirão. A concentração junto do litoral ou perto de cursos fluviais está de acordo com a tradição de laços comerciais intensos entre as duas margens do Guadiana e confere com os relatos de Ptolomeu, Marciano e Mela citados no parágrafo anterior. Qual seria a relação entre estes cultos e prósperos Turdetanos com o nosso objecto de estudo, os cónios? As inscrições tartéssicas , e as inscrições sud-lusitânicas ou cónias sobrepõem-se geograficamente, embora permaneçam morfologicamente distintas e as suas zonas nucleares de maior densidade sejam facilmente identificáveis. Estes indícios indicam estarmos perante duas civilizações semelhantes, obviamente próximas sob todos os aspectos, mas perfeitamente distintas. Também o grande nível de prosperidade alcançado no sul da Península e sobretudo o número de cidades ocupadas por estas populações turdetano-tartéssicas, as afasta das modestas e raras povoações cónias que conhecemos. Aliás, as referências de Estrabão e de outros autores clássicos parecem aludir sobretudo ao que se conhece da cidade de Tartessos e aos territórios por ela directamente tutelados. Não é impossível que os Tartéssicos não fossem mais do que os Turdetanos que viviam na cidade de Tartessos, assim como não é impossível que os cónios fossem os turdetanos que viviam na margem ocidental do Guadiana. A posição periférica dos cónios em relação aos grandes centros comerciais do sul peninsular explica a menor riqueza e – sobretudo – a diminuta dimensão das suas povoações.
A acreditar em Antonino Pio, os Turdetanos ocupavam antes da chegada dos romanos o território cónio. Poderemos então considerar os cónios como Turdetanos? Recordemo-nos que os Turdetanos eram considerados como “os mais cultos dos iberos” e que conheciam a escrita, assim como os cónios. Dada a proximidade geográfica, é impossível admitir que não tenham existido contactos entre cónios e Turdetanos. As relações comerciais entre ambos são inegáveis e robustas, como testemunha a arqueologia. Mas as inscrições sud-lusitânicas podem ser designadas com pertencentes a uma “escrita turdetânica” ou a uma “escrita cónia”? Acreditamos que a melhor prova de que se tratam de inscrições cónias está precisamente na presença quase omnipresente da palavra “cónio” nas estelas do sul de Portugal. Não encontrámos até hoje nenhuma alusão aos Turdetanos nas nossas leituras, conforme veremos mais adiante… Esta identidade entre Tartéssicos e Turdetanos é praticamente consensual, como nos testemunha J. Constantin Dragán quando afirma que: “Os romanos chamavam aos Tartessos pelo nome de Turdetanos.” Daqui se infere que as expressões “escrita turdetânica” ou “escrita tartéssica” são simplesmente equivalentes, uma vez que Tartessos era a cidade capital dos Turdetanos. Algo de semelhante, contudo, não pode ser dito em relação à “Escrita Cónia” ou “Sud-Lusitânica”.

O termo “Escrita Sud-Lusitânica” tem sido o preferido pelos historiados portugueses e do além Guadiana. Mas esta expressão peca pela sua limitação geográfica e imprecisão. Efectivamente, e para além do evidente galicismo de “Sud”, nem só na Lusitânia foram encontradas inscrições deste género, uma vez que na Bética (além Guadiana) também temos diversos exemplos do seu uso . É certo que esta é mesmo a mais segura das expressões, uma vez que não implica nenhuma adesão às teorias turdetânicas, tartéssicas, cónias ou hebraico/fenícias. Daquilo que já escrevemos, deduzimos que o povo que escreveu estas estelas foi efectivamente o cónio. Seguindo uma linha de pensamento semelhante à nossa, Lopes Navarro prefere o emprego da expressão “Escrita Cinética”. O termo é efectivamente adequado na medida em que respeita à designação de Cyneticum empregue por alguns autores clássicos e porque indica a origem genética das próprias inscrições. Infelizmente, a palavra “cinética” tem um significado bem diverso no dicionário da língua portuguesa e o seu emprego pode suscitar confusões perfeitamente desnecessárias. Julgamos assim que uso da expressão “Escrita Cónia” expressa mais claramente a origem das inscrições, o seu âmbito geográfico e, sobretudo, não utiliza uma palavra de uso corrente e diverso daquele que se pretende utilizar, razão pela qual o utilizámos exaustivamente no decorrer do nosso trabalho.”

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45 thoughts on “A Escrita Cónia: Os Cónios, Tartéssicos e Turdetanos, um mesmo povo? E a questão da designação da Escrita Sud-Lusitânica

  1. Custa a crer que numa peninsula relativamete pequena , mesmo para a época, haja assim tanta difrença. Decerto que há uma similariedade comum em que a origem de alguma forma teve ramificações, ou não. Interessante este o tema linguístico que tens vindo a trazer a lume.

  2. a diversidade das línguas peninsulares é um dos mistérios mais profundos (e talvez insolúveis) da História antiga da Península Ibérica. Creio que foi Estrabão que afirmou que havia uma grande diversidade de línguas peninsulares e que a maioria não entendia os falares dos seus vizinhos.

    Isso só mostra que a Península conheceu uma imensa diversidade étnica, anormal e rara no resto da Europa, que é aliás hoje uma das nossa maiores forças…

  3. Anónimo

    eloim = haloyn (carnaval?)

  4. Cirilo

    Para chegar-mos ate a lingua dos conios; do actual Algarve e Baixo Alentejo, nao basta munirmo-nos da teoria Indo-Europeia e percorrer desde o Caucaso ate ao extremo suloeste da Peninsula Iberica. Com efeito, existem outras teorias que tambem me parecem interessantes, como por exemplo a Teoria da Continuidade do Paleolitico -PCT, bem como outros meios de transportes, amplamente divulgados, desde ha muitos milenios, antes de Cristo; o maritimo, – por barco, evidentemente: pela sua utilidade e economia. E, finalmente, mais proximos da rainha mae das ciencias sociais; a ECONOMIA. A partir daqui temos necessariamente que por em comum diferentes produtos, ideias, interesses, culturas, religioes, ou seja diferentes identidades, o que equivale a dizer da necessidade e utilidade de uma unica LINGUA, indo-europeia muito antes dos celtas, dois ou tres milenios. Diria mesmo com a introducao da agricultura e pastoricia, durante a transicao do mesolitico para o neolotico coincidindo com a cultura megalitica. Assistimos, assim, em Almendres ao inicio de uma ocupacao espacial, ate entao nunca vista, menires, recintos antas e dolmens, como que a reproduzir o ceu na terra, mostrando que o conhecimento, SABER, do povo KONI, nao e assim tao primitivo como supunhamos e que de facto eles sao os sabios das civilizacoes. KONI em esperanto significa conhecer, saber. Mais ainda, como nao existiam registos, os conios com muita idade nao se aventuravam nos barcos, pela sua experiencia e saber eram as bibliotecas vivas, em que o mais sabio eleito por todos os outros EUS. Ao escolherem um esse era de todos DE EUS. Almendres terra natal de DEUS.

  5. duarte

    onde é q está a ligação entre os cónios e os megaliticos, as estelas foram com a palavra koni foram encontradas dentro de alguma anta? Ou existe alguma inscrição num sítio megalitico?

  6. a ligação é o gegráfica.
    os megaliticos são do calcolítico, as estelas da Idade do Bronze, posteriores, portano.
    Penso existirem antas perto de estelas, o que é normal, porque houve continuidade de povoamentos em muitos sítios arqueológicos desta região.
    Inscrições em megalitos, apenas gráficas, se exceptuarmos a estranha (e única “Escrita de Alvão”)
    http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/5217.pdf

  7. Sonífero

    Mais eos ‘Lusitanos’ , eles tem alguma a ver com os Conios ????Ou sará q eles sao irmaos dos Conios por parte ibero ,conforme Deodóro declara q os lusitanos sao iberos, e q tambem eles preferiram aceitar uma aliança circular com os turdulos e turdetanos e com os conios manter distancia por causa deles ter feito alianças com os invasores romanos na época da guerra lusy-romanos???

  8. poderão partilhar com eles a mesma matriz étnica (pré-celta e talvez ligada ao substrato medierrânico tardenoisense do norte de África). Culturalmente, contudo, os lusitanos são celtas, de cultura, religião e incorporando muitas palavras indoeuropeias na sua língua.

    • É muito provável que os cónios sejam proto-celtas, foram-se orientalizando e provavelmente já no final do sec. II ac até à invasão dos celtas já se diferenciassem consideravelmente dos conterrâneos do Alentejo norte e mais ainda dos Lusitanos. O facto da escrita do sudoeste exagerar na marcação das vogais junto aos silabos B/P, G/K, T/D, assim como a própria invenção das vogais, indica que se estará mais próximo de uma língua celtoide do que de uma língua não indo-europeia.

      • Mas como assim? Pertenceriam a uma primeira vaga migratoria indo-europeia? Nao é mais facil acreditar simplesente que sao etnicamente de origem local, mas linguistica e culturalmente dominando por invasores numericamente inferiores mas tecnologica e militarmente superiores (como sucedeu na europa romana com os germanos, de resto)?

  9. kierk

    li há uns tempos que os conios poderiam ser orginários do povo hitita da Anatólia, actual Turquia. e que teriam procurado novas terras quando o seu imperio se desmenbrou. é uma hipotese baseada na toponímia.

  10. Luís Teixeira Neves

    Cito da “Orla Marítima” de Avieno:

    “Aí fica a cidade de Gadir, chamada / antes Tartesso”;

    “Fica nesta zona a cidade de Gadir, pois em língua / cartaginesa a um lugar fechado chamava-se Gadir. / Antes, essa cidade foi denominada Tartesso”.

    Suponho ser consensual que Gadir/Cádis nunca foi Tartesso(s). Então a pergunta é: Onde foi Tartessos? Algures, a montante, nas margens do golfo ou do rio homónimos? Mas, na “Orla Marítima” o rio só é homónimo (e consequentemente o golfo onde desagua) porque é o rio que banha Cádis que aí se alega ter-se chamado Tartesso.

    Volto a citar:

    “Mas a ilha [de Cádis] cinge-a por todos os lados com sua / corrente o rio Tartesso, que do lago Ligustino flui / por campos abertos. Não corre, porém, um leito sim- / ples nem sulca, em caudal único, o solo subjacente: / na parte oriental introduz três bocas nos campos e / banha com quatro bocas a parte meridional da / cidade. Ao pântano encosta-se o monte [Argen- / tário], assim chamado pelos antigos em consequência do seu / aspecto: as suas encostas brilham extensamente devido / ao estanho e ele, à distância, reflecte nos ares maior / explendor, quando o sol bate com seus raios os elevados / cumes. O mesmo rio transporta nas águas aparas / do pesado estanho e traz atá às muralhas de Tartesso / o rico metal.”

    E assim, se Cádis nunca foi Tartessos, talvez o rio Guadalquivir (que também nunca banhou Cádis) nunca se tenha chamado Tartesso. E assim não há motivo para procurar nas suas margens a cidade de mesmo nome.
    Sabemos que o rio se chamou Betis. Chamava-se assim quando os romanos chegaram. E esse facto era suficientemente forte para os romanos à sua província na Andaluzia chamarem Bética e não Turdetânia.

    • Mas o principal argumento para separar gades da cidade de tartessos está no facto de uma ser uma colonia fenicia e a outra ser “nativa”, certo? E porque nao, duas cidades gemeas, construidas uma ao lado da outra. Nao ha quem creia que tartessos se afundou nas areias ao largo de cadis?

      • Luís Teixeira Neves

        Cádis é uma fundação de raiz fenícia. Suponho que os arqueólogos (aproveitando as obras de renovação urbana) têm confirmado isso. O mais antigo é fenício. Nada de orientalizante (conexo com a civilização tartéssia).

  11. Luís Teixeira Neves

    Continuando a citar da “Orla Marítima” de Avieno:

    “O rio Anas / percorre a região dos Cinetes e sulca as suas terras.”

    “Contíguo / fica o território dos Tartéssios, cuja terra é banhada / pelo rio Tartesso.”

    Isto é, os Cinetes estão no Guadiana (a um e a outro lado do rio) e os Tartéssios, sejam eles lá quem forem, estão no Guadalquivir ( a um e a outro lado do rio) e a partilha entre uns e outros faz-se a meio, isto é, num dos rios que desaguam em Huelva e que na “Orla Marítima” se chama, também erradamente, Hibero.

    “Corre depois o rio Hibero, cujas águas fecundam estes lugares. / Afirmam muitos que dele retiram o nome os Hiberos / e não do rio que banha os turbulentos Váscones. / E toda a região que confina com o rio a ocidente é / denominada Hibéria. Por seu lado, a parte oriental encerra os Tartéssios e os Cilbicenos.”

    • E a escrita era muito semelhante, havendo ate arias estelas conias (cinetes) do outro lado do guadiana.
      Sim, a regiao de tartessos era entre o guadiana e o betis, parece-me claro.
      E que os conios eram cultural e linguisticamente proximos, mas politicamente autonomos, ate segundo Avieno.

      • Luís Teixeira Neves

        Entre o Anas e o golfo tartéssico, na Orla Marítima:

        “Segue-se um cabo consagrado à deusa infernal e um rico santuário – esconderijo de oculta gruta e escura cripta. Perto há um grande pântano chamado Erébea. Conta-se também que a cidade de Herbo, nos tempos primitivos, se erguia nestes lugares, mas, destruída pelas tempestades das guerras, apenas deixou a fama e o nome a esta região. Corre depois o rio Hibero, cujas águas fecundam estes lugares. Afirmam muitos que dele retiram o nome os Hiberos e não do rio que banha os turbulentos Váscones. E toda a região que confina com o rio a ocidente é denominada Hibéria. Por seu lado, a parte oriental encerra os Tartéssios e os Cilbicenos. Depois aparece a ilha de Cartar que outrora, segundo uma tradição bastante espalhada, esteve na posse dos Cempsos. Expulsos depois, devido à guerra dos vizinhos, afastaram-se em busca de vários lugares. Em seguida eleva-se o monte Cássio.”

        Na edição portuguesa da Orla Marítima, o seu responsável, José Ribeiro Ferreira, a propósito nota o seguinte:

        “É lícito, sem dúvida, estabelecer uma relação dos nomes da cidade e do pântano com o mitónimo grego Erebos. (…) Foi nesta região, por seu lado, que os Focenses colocaram as lendas relativas ao Tártaro e aos Titãs.”

        Numa pesquisa rápida usando a Wikipédia descubro que o Ebro, o “rio que banha os turbulentos Vascones”, foi chamado pelos romanos de Hiberus. Do grego Iber. Descubro também que, na sua margem, próximo ao delta pelo qual desagua no Mediterrâneo, existe a cidade de Tortosa. Suponho que os espanhóis dirão tortossa. Sob os árabes chamou-se Turtusha e sob os romanos Dertosa. Será que o actual é mais fiel ao nome pré-romano da cidade? E pré-grego… Porque antes dos romanos a cidade também se terá chamado Hibera. Como o rio. Ou o rio como a cidade. Do grego Iber. Descobri também e por último que um dos afluentes do Ebro é o Huerva. Parecido com Herbo. Uma confusão.

      • Serão o povo descendente do povo das antas e cromoleques, sem hierarquia social ou militar, cada aldeia teria a sua organização, festas e romarias anuais aproximavam e fortaleciam os laços e alianças entre estirpes e familias.

        • E teriam que uma forma qualquer de administracao politica comum, tipo uma federacao de cidades, aparentemente sem nenhuma “caput” formal. So assim se explicaria a sobrevivencia da sua independencia cultural durante tanto tempo… embora tenham beneficiado de estarem fora das principais rotas de invasão europeias, sem duvida.

  12. Que grande confusão aqui vai, e que história tão especulativa. Antes de mais são tudo tretas!

    Em Portugal não se usa quase nunca a expreção escrita “sud-lusitana” isso é usado apenas na literatura espanhola. O mais comunemente usado e correcto até novas descobertas é “escrita do sudoeste” e mais nada. Nem sequer é certo que os cónios dos gregos ou o cinetes dos romanos são o povo do sudoeste.

    A arquelogia apenas consegui até agora relatar o seguinte:

    No início da Idade do Bronze o povo do Sudoeste (o das Antas e cromeleque etc) desce das montanhas e dos seus castros e acampa em pequenos povoados em terras baixas, geralmente muito férteis e cujo relevo natural permite rotas comerciais do interior à costa do Alentejo Litoral, Foz do Sado ou à Costa Algarvia. Mais tarde dedica-se também à exploração mineira. Por volta do séc. VIII antes de cristo adequire a tecnologia da escrita. O Alfabeto terá mais parecência com um alfabeto hihita do mar negro, e não fenício, como se lê muito por aí. Num processo muito longo do séc. VIII ac ao II ac. estas populações tenderão a abandonar o padrão de habitações redondas para rectangulares por vezes com divisórias internas e casas a ladear ruas, assim como distinções mais claras entre zonas produtivas, habitacionais e necrópoles. Sabemos que estas populações se orientalizaram profundamente, tais como os povos do Castro da Azambuja. Encontram-se peças de várias origens do mediterrâneo, cerâmica grega e fenícia assim como do Levante. Foram as poucas estelas encontradas em ambientes urbanos actuais, Tavira, as estelas são quase todas contextualizadas em pequenos povoados mineiros e agrícolas, e algo abastadas. Perante a delicadeza dos artefactos encontrados as estelas estão quase todas rudemente gravadas. O que leva a supor muitas hipóteses uma delas de que nestas aldeias haveria pouco uso para a escrita, contudo o uso perlongado da mesma e até a evolução nos caracteres indica que fora usada com praticabilidade. Não sabemos quais eram os centros urbanos deste povo, mas tudo leva a querer situarem-se em actuais centros urbanos, daís a dificuldade arqueológica. Usariam no seu quotidiano provavelmente materiais perecíveis para escrever tais como tecido, barro seco, ou madeira. Não existem sinais de hierárquias sociais fortes nem do uso de escravos.

    A escrita do sudoeste desenvolveu sobre um alfabeto semita um pseudo-silabário para as letras T/D, K/G, B/P, falso porque contudo o caracteres silábicos eram sempre acompanhados pela letra vogal correspondente (redondâcia). O sistema vocálico do sudoeste é inovador e tem paridade com o grego. Acredita-se que a escrita do sudoeste terá sido levada através do comérico para o levante, escrita tratésia e para o norte onde fora muito prefeccionado pelos celtiberos. Tanto os tartesos como os celtiberos usaram um silabário puro, i.e., perderam os sistema vocálico. Isto também poderá indicar de que se tratam de línguas muito diferentes, a base celtoide dos povos do sudoeste exigiria uma maior presença de vogais do que as línguas de base do ibero.

    Não aparece em nenhuma estela a palavra cónio. Aparece sim um conjunto de caracteres que parecem indicar a função das estelas, e o mais sugerido tem sido “aqui jaz”.

    Tampouco a função das estelas está totalmente esclarecida. A maioria das estelas encontradas foram reutilizadas (em especial pelos romanos) e estão fora de contexto. Algumas foram econtradas próximo das necrópoles. A maioria das necrópoles saqueadas e violadas.

    Encontraram-se estelas na Extremadura espanhola, mas em muito menor número, e são muito mais delicadas do que as encontradas em Portugal o que poderá sugerir que fossem ofertas de visitas aos famosos santuários que havia por essas zonas.

    Por volta do séc. II ac o sul do Alentejo sofre uma invasão de tribus celtas. O povoamento reocupa os antigos castros do início da idade do Bronze e desaparecem no Alentejo quaisquer vestigios da civilização do sudoeste. No Algarve os fenícos instalam feitorias ou mesmo colónias.

    Logo após a conquista romana serão cunhadas moedas com esta escrita contudo: Não é claro se é turdetana ou do sudoeste, nao é claro que turdetanos tenham ali estado, e nao é claro que tivessem sido cunhadas para uso local ou se foram cunhadas com vista a servirem de pagamento num outro entreposto comercial.

    Não há quase nada que possamos dizer sobre a civilização do sudoeste e a sua escrita. Terão de se obter muitos mais artefactos para se poderem fazer mais afirmações. Tém sido feitos avanços grandes nos últimos 10 anos com a descoberta de novos documentos, estelas e faiança, e estudos na área da epigrafia. Sem uma espécie de pedra da roseta pouco se poderá decifrar. Descobrir um povoado de tamanho médio sem ter tido continuação histórica para além do sec. I ac também ajudaria muito a fazer-se luz sobre esta civilização cada vez mais mítificada.

    Uma boa parte do sítios arqueológicos foram reocupados pelos romanos e isso é também um dos entraves, por fim a maioria das estelas foram recolhidas no sec. XVIII e não ficaram registos da sua contextualização.

    http://escritadosudoeste.no.sapo.pt/caracteres.html

    FMNAN

    • Tretas é um termo um tanto forte demais para um diálogo construtivo… de qualquer modo irei responder, mas num Artigo dedicado e que brevemente sairá no Quintus.

      • Sim tretas é forte mas tem a ver com uma ciência de nova mistificação em Espanha que procura uma nova genética unbilical com Portugal, e que anda a criar muita especulação historicista muito infundamentada. Já que a Galaico-Lusitana dá prioridade a Portugal, tenta-se criar uma que dê glória ao sul de espanha.

        Não têm havido muitos artigos a interligar as estelas achadas e o resultados arqueológicos e as suas consequências interpretativas. A maioria são relatórios arqueológicos iniciais dos diversos sítios. A Epigrafia têm ignorado muito esses aspectos interdiciplinares, com as maiores teses sobre a escrita do sudoeste a ignorarem os achados e a fazerem só referência aos textos antigos.
        Mas os achadas não mostram qualquer relação priviligiada com os Tartesos em termos de trocas comerciais. Os povos do sudoeste serão mais antigos e parecem ter comerciado directamente com povos do médio oriente. Não parece que tenham sequer servido de intermediários com os povos a norte. Embora no Castro da Azambuja não é evidente que povos do mediterrâneo oriental se tenham ai aventurado directamente mas tenham usado algum parceiro. A escrita dos tartessos e dos Celtiberos descende da escrita do sudoeste e não inversamente. O que é estranho tendo em conta que o desenvolvimento técnico e das artes era notável nos últimos assim como nos tartessos e muito incipiente no sudoeste..
        Mas volto a frisar não há sinais de ter havido uma estrutura defensiva do território, ou de organização hierrárquica do mesmo, nem sequer haver uma distinção clara de hierarquia social.

        • Mas mais estranho é não existir um interesse academico sistematico, organizado e bem financiado naquela area que poderia ser uma das prioridades da nossa investigação historica.
          Sei de professores universitarios de Historia que tem um conhecimento apenas superficial sobre aquela que pode ser uma das escritas alfabeticas mais antigas do mundo e isso, sim, é que é realmente notavel.
          Quanto aos espanhois eles sao assim… o principal defensor dessa tese era um tal de Moreno, certo?

          • Porque obviamente se quer manter a tese da primazia lusitana e galaica na formação dos Portugueses. Estranho também é o facto de grande maioria dos sítios identificados terem sido utilizados pelos Romanos e muito raramente pelos mouros.

            • E negas essa primazia? Portugal formou-se do norte para o sul, seguindo a geografia…

              • Não, de forma nenhuma. Mas é estranho que a arqueologia tenha evitado esforçar-se mais por descortinar o enigma do sudoeste, para mais que desde o sec. XVIII que há gente a dedicar-lhe interesse.

                • Suspeito que é porque os historiadores “sérios” tiveram medo de cair no ridiculo ao debruçarem-se numa area que ja atraiu a atenção de demasiados (?) Amadores… o meio academico é tramado e carreiras promissoras podem fazer-se ou desfazer-se por causa de um “erro” destes…

                • A dificuldade advinda do desconhecimento da lingua grafada pode também explicar esse estranho mas bem evidente desinteresse…

        • o Francisco quer fazer esquecer milhares de anos de ligacão entre o sul da peninsula ,na Antiguidade o transporte quer material quer humano era mais rapido por via maritina ou fluvial do que terrestre qualquer ser racional consegue perceber que as ligações Algarve Andaluzia eram mais viaveis que norte galiza.Ate por razões de relevo tudo se resume a comunicação do porto a vigo demoravas que 4 semanas ou 8 semanas enquanto de tavira cadiz por exemplo demoravas meio dia.Essa ligação genetica existira´ sem duvida entre genuinos Algarvios e genuinos Andaluzes.

  13. As moedas referidas são da cidade de Alcácer do Sal, contudo não há vestígios por estas bandas de presença anterior.

    É de supor que o povo do sudoeste se começara a destinguir dos seus parentes a sul e a norte, sende que os no Algarve e Baixo Alentejo em especial nas margens do Guadiana e do Mira se tivessem orientalizado muito mais que ao norte.

    É de notar um período de quase 6 séculos de paz. As serras algarvias e a estabilidade económica dos Tartesos a leste, as tendências não espancionistas dos Lusitanos talvez sejam explicação.

    Tal como os Lusitanos não parece haver indícios de hierarquia ou mesmo de um centro político organizador.

    Talvez uma confederação alecerçada nas antigas alianças familiades formadas desde os tempos dos cromeleques e das antas. Com feiras e romarias periódicas que facilitavam trocas equilibradas e reforçavam as Alianças.

    • Esse caráter disperso e descentralizado é o mais curioso numa civilização que terá – talvez – inventado a escrita na península (a partir de um modelo fenicio).
      A descentralizacao, provavelmente via federacao de pequenas cidades, parece ter sido o modelo. Mas os conios revoltaram-se pelo menos uma vez no dominio cartagines, pelo que tinham pelo menos esse grau de organização.

  14. Luís Teixeira Neves

    Tenho retido de leituras várias que a escrita do sudoeste precede e está na origem de todas as escritas ibéricas e incluso da celtibérica. Sendo a escrita em si de origem oriental tal se explica pela rota do norte de África que passa à Europa no Estreito de Gibraltar e pela localização da riqueza metalúrgica mais ainda a ocidente. Isto são escritas do 1.º milénio a. C. A alegada, pelos próprios turdetanos, antiguidade da sua escrita, a ser verdadeira, coloca a sua origem no 4.º milénio a. C. e isso é coisa que os historiadores e arqueólogos ainda não reconhecem.

    • A origem última na fenícia é clara desde que se estabeleceu a ligação genética de alguns carateres (através da proto-sinaítica), como o nosso A… Essa é a tese de alguns especialistas, como Lopes Navarro, mas não é seguida pela “mainstream” do ramo, ao que sei…

  15. Luís Teixeira Neves

    O Guadiana foi uma fronteira administrativa romana. Entre a Lusitânia e a Bética. E o Itinerário de Antonino, do século II d.C. reflecte essa realidade. O Périplo em que se baseou a Orla Marítima é do século VI a. C.

    • estive a ver melhor, e parece que “Anas” afinal é latim (“patos”?), logo não seria uma palavra pré-romana, como a maioria dos nomes de rios portugueses (tejo, douro, etc)

  16. Luís Teixeira Neves

    Ainda se fosse “cabras”… podia ter alguma coisa a ver…

    • Cabras? Porque?… eu esperaria algo mais ligado a coelhos… nao era essa a origem do nome semita da península?

      • Luís Teixeira Neves

        A cabra (ou o bode) era o animal consagrado à deusa Atégina. Tinha culto tanto na Lusitânia como na Bética, especialmente em localidades próximas ao Guadiana.
        Curiosamente na Orla Marítima consta o seguinte a propósito das imediações da Ponta de Sagres: “Aqui os habitantes criam cabras de longo pelo e / numerosos bodes que percorrem sem cessar os bos- / ques da região, produzindo densa lã, aproveitada nos / acampamentos e nas velas dos marinheiros.”
        Curiosamente também, na Orla Marítima assinala-se, não muito além da foz do Guadiana, um santuário dedicado à deusa infernal e não é que se estabelecia a correspondência entre Atégina e Proserpina?!

  17. Luís Teixeira Neves

    Estive a ler em Juízes, Capítulo I… Isto é a propósito de Lusa… É assim…

    “E subiu também a casa de José a Betel (…) e foi dantes o nome desta cidade, Luz. (…) Então aquele varão foi-se à terra dos Heteus, e edificou uma cidade, e chamou seu nome Luz; este é o seu nome até o dia de hoje.”

    Uma ligação entre a Luz cananita e a Lusanda neo-hitita.

    • Ok, admitamos a origem oriental dos lus-itanos. Mas nas culturas, o substrato religioso (e o linguistico) é muito resiliente, mas nao ha paralelismos entre o que se conhece da religiao lusitana e a dos hebreus!

  18. Luís Teixeira Neves

    Mas o dito varão não era hebreu, mas sim cananita ou hitita (heteu). Se hitita, falaria hitita ou luwita, línguas indo-europeias (pré-célticas), se cananita falaria cananita, língua semita de que o hebreu é só uma evolução temporal. Num e noutro caso seria pagão como os lusitanos e, aliás, como os próprios hebreus. O monoteísmo judaico só se consolida após o regresso do exílio na Babilónia. É o que dizem os historiadores e os arqueólogos.

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