Sobre a pesca à baleia no Japão e… os gostos culinários dos seus jovens


(Só um deles é que gosta de carne de baleia… in http://www8.cao.go.jp)

Um dos argumentos usados pelo governo japonês para manter a sua polémica e quase universalmente criticada atividade de pesca às baleias tem a ver com o desejo de preservar a “forma tradicional de vida” de algumas cidades costeiras e que alimenta uma rede de restaurantes de “sashimi” (carne de baleia).

Tóquio espera capturar mais de mil baleias por ano, com fins “científicos”, mas espera também recolher da “International Whaling Commission” autorização para recomeçar a captura comercial de baleias ainda este ano. Os japoneses criticam os ocidentais que classificam a pesca de baleia como “bárbara”, alegando que as televisões mostram sempre a fase da captura em que o sangue transborda para o Oceano e tinge de vermelho as águas do Pacífico, mas que não mostram com as mesma frequências as cenas em que vacas e porcos são chacinados aos milhões em todos os matadores da Europa e do resto do mundo. Pessoalmente, não posso deixar de compreender o argumento e a evidente hipocrisia ocidental que exprime. O sofrimento de qualquer mamífero evoluído devia ter tido sempre em conta em qualquer regime ou opção alimentar. Economicamente, o rendimento de energia que decorre da conversão das matérias vegetais absorvidas por vacas e suínos em energia, na nossa mesa, é um processo ineficiente, e de facto, uma dieta à base de carne só é justificável pelo seu sabor, não pela sua necessidade imperativa, como demonstram bastantes estudos, especialmente se a dieta fôr complementada com leite, ovos e peixe. Mas serão assim tão comparáveis o gosto ocidental por carne com a pesca comercial à baleia praticada (sob pretextos “científicos”) pelo Japão? Não o cremos… Em primeiro lugar, vacas e porcos não estão à beira da extinção, como estão a maior parte das espécies de baleias, alvo de séculos de pesca sistemática. Em segundo lugar, as baleias são mamíferos muito inteligentes, tendo algumas espécies um certo de tipo de linguagem, e logo, de cultura que passam de geração em geração (ver AQUI).

Um estudo conduzido pelo professor Hal Whitehead, da Universidade de Dalhousie, no Canadá demonstrou que as baleias aprendem umas com as outras e que passam informação de geração em geração, cumprindo assim os dois requisitos essenciais de uma “Cultura” humana. As suas canções de acasalamento são uma prova física dessas culturas, já que evoluem, não são estáticas ou o resultado da recomposição de vários padrões conhecidos, como sucede com as aves, mas o produto de criações originais, que evoluem e cujos padrões são reproduzidos e adaptados por vários indivíduos da espécie, até um ponto em que, anos depois da canção original, a variação é tão diferente que quase não é reconhecida enquanto tal. Algumas espécies de baleias - como a Orca - têm dialectos diferentes de grupo para grupo, exactamente como os seres humanos possuem dialectos e línguas diferentes entre si, e o mesmo se passa com os cachalotes que são tão comuns nas águas dos Açores… Terão os Homens direito que caçar até à extinção as únicas criaturas que além de si próprios também têm uma cultura, ainda que pela falta de polegares oponíveis, não sejam capazes de construir ferramentas e de terem uma civilização material como nós?

Contudo, se os pudores morais parecem não ser suficientes para demover o Japão das suas intenções de continuar a ser o único país do mundo, além da Noruega e da Islândia a caçar baleias, os gostos culinários das novas gerações de japoneses podem estar a resolver o problema… Os jovens japoneses não revelam grande interesse por este prato da culinária tradicional, tendo um inquérito recente indicado que só 12% dos jovens nipónicos apreciam o sabor da carne de baleia… Assim sendo… O problema vai acabar mesmo por resolver, não na mesa das negociações mas… graças ao palato dos jovens japoneses.

Fontes:

http://www.terradaily.com/reports/Japanese_whalers_stand_firm_as_controversy_grows_999.html http://www.iwcoffice.org/ http://www.sciencentral.com/articles/view.php3?article_id=218392150&language=english

Que computadores e sistemas operativos correm dentro da sonda marciana Phoenix?


(Computador espacial RAD6000 da BAE in http://www.mundobot.com)

Tenho dedicado alguns artigos ao lander Mars Phoenix que a NASA colocou no pólo norte marciano… Sabendo que a dita sonda teve logo nos seus primeiros dias no planeta vermelho uma avaria de software, logo corrigida por uma nova versão enviada para Marte da Terra, mas que levou à perda de várias fotografias da sua memória Flash fiquei naturalmente curioso sobre o tipo de software e de sistema operativo que fazia funcionar a sonda, pelo que realizei uma pequena busca na Internet sobre o dito…

Em primeiro lugar, a avaria consistiu na conservação de fotografias captadas logo nos primeiros momentos após a aterragem da sonda e que foram guardadas numa memória flash. A dita memória ficou cheia e em consequência perderam-se algumas destas imagens. A falha foi detectada quando a Phoenix enviou o mesmo grupo de dados 45 mil vezes seguidas, como se tratasse de um disco riscado. A sonda está configurada para tira fotografias durante o dia marciano, guardá-las em memória flash e depois, de noite, descarregá-lo para uma das duas sondas que a NASA tem em órbita de Marte, limpando a memória no fim desse processo. A falha fazia com que a memória fosse limpa, sem que estes dados fosem enviados. Felizmente, como esta sonda é estática e não se move pelo solo marciano como os rovers Opportunity e Spirit, os dados perdidos não foram importantes e antes do envio de uma nova versão de software os engenheiros da NASA ultrapassaram o problema determinando que a sonda enviava as imagens captadas para órbita assim que eram captadas, não deixando assim encher a memória flash problemática.

E quanto ao coração informático da Phoenix?

Bem, a flexibilidade demonstrada indica que ao contrário das primeiras sondas da era espacial, a sonda utiliza software e sistemas padronizados e concebidos para terem um elevado grau de robustez, redundância e flexibilidade… É que ao fim ao cabo se tivermos um écran azul no solo de Marte ou de Titã, não podemos chamar a assistência, certo? E isso indica desde logo que não se pode confiar em nenhum dos sistemas operativos disponíveis no mercado, mas em coisas mais ou menos “esotéricas”… Mas um RAD6000 “space computer” construído pela empresa britânica BAE Systems. O dito computador, inserido bem no coração da Phoenix corre como sistema operativo o Vx-Works, um sistema escrito em linguagem C da Wind River Systems.

O RAD6000 utiliza tecnologia comercial, mas reforçada com sistemas de protecção contra radiação. Possuem funções que permitem o controlo remoto da memória local, algo que é vital numa missão espacial onde tudo ocorre a grandes distâncias e sem qualquer possibilidade de interferência local no sistema. O sistema, contudo, tem as interfaces de I/O comuns na maioria dos sistemas informáticos caseiros, nomeadamente o barramento de placas PCI, conectores RS232 e RS422 e portas Firewire. O RAD6000 da Phoenix não é o mais sofisticado computador fabricado pela BAE, sendo este o RAD750TM, o que indica desde logo como a contenção de custos foi um dos aspectos mais determinantes desta sonda marciana.

O RAD6000 foi construído em torno de um processador RISC de 32 bits da IBM a 3,3 volts, o mesmo que esta empresa norte-americana utiliza nas suas workstations IBM RISC System/6000 e congrega uma cache interna de 8 Kb. O processador suporta entre -25 a +105 graus centígrados. Além desta cache, o Phoenix acede a 8 Mbytes de SRAM e uma PROM de 128 Kbytes pesando todo o conjunto menos de um quilograma.

Atualmente, haverá cerca de 400 computadores da série RAD no espaço, no mais diversificado número e tipos de satélites e sondas espaciais e constituem assim o cérebro da maioria dos satélites e sondas espaciais lançadas por países ocidentais nas últimas décadas sendo um dos componentes mais importantes e menos falados da exploração do Espaço pelo Homem…

Fontes:
http://www.eis.na.baesystems.com/sse
http://www.windriver.com/
http://is.gd/DkP
http://edition.cnn.com/2008/TECH/space/06/19/phoenixglitch.ap/index.html?eref=rss_space

O Brasil como um dos países do mundo onde mais cresce o número de utilizadores de Internet

Brasil é um dos países do mundo onde a taxa de crescimento de novos utilizadores de Internet tem crescido mais. Na origem deste fenómeno está uma confluência de diversos factores, como a apreciação do Real e a consequente redução dos custos dos equipamentos informáticos importados, para além de reduções fiscais na aquisição deste tipo de equipamentos e uma generalizada melhoria dos padrões de vida e do salário médio.

Atualmente, é política oficial do governo brasileiro, recorrer à Internet como forma de reduzir os níveis de crime nas regiões onde estes são mais intensos, nomeadamente nas favelas de São Paulo e Rio de Janeiro. E de facto, o uso da Internet entre estas camadas socio-económicas, especialmente em cibercafés ou instalações de ONGs tem crescido sem parar desde à dez anos e este crescimento explica em grande parte porque é que em 2007 se venderam no Brasil mais computadores do que televisões (ver AQUI). Ou seja, no Brasil já não é preciso pertencer às classes altas ou médias, para navegar na Internet e isso está a transformar a estrutura social de todo o país… Um programa governamental, intitulado “Computadores para todos“, que arrancou em 2003 pretende entregar a todos os brasileiros de menores condições financeiras um computador ligado à Internet, com software de código aberto (Linux, OpenOffice, Firefox, etc), assim como suporte técnico para o mesmo. Este programa esteve na direta origem do aumento em 17% do número de computadores em famílias com rendimentos entre os 600 e os 1000 dólares mensais. Paralelamente corre um outro programa governamental para instalar em 55 mil escolas públicas acessos de banda larga à Internet até 2010, um movimento que está a ser complementado nalguns municípios com a multiplicação de pontos livres de acesso à Internet, usando WiFi e “centros de Internet”, como sucede em São Paulo que deverá ainda este ano aumentar de 238 para 300 postos esse número de centros.

O IBOPE estima que existam hoje no Brasil cerca de 22 milhões de brasileiros com acesso residencial à Internet, mais 56.7% do que em 2007, naquele que representa um dos maiores crescimentos mundiais e que mais poderá alterar a qualidade de vida, e potenciar o desenvolvimento social, cultural e económico do Brasil e resolver os já antigos problemas de dequilíbrio social e económico que afectam a sociedade brasileira.

Fontes:
http://www.worldpoliticsreview.com/Article.aspx?id=1891 http://www.marketingdigital.com.br/index.php/venda-de-computadores-ultrapassa-a-de-televisores/ http://www.computadorparatodos.gov.br/projeto

Portugal (em percentagem do PIB) é o país-membro que mais contribui para os cofres da UE

//www.anossaescola.com)

(http://www.anossaescola.com)

Um dos maiores argumentos a favor da permanência de Portugal na União Europeia tem sido o factor financeiro. O volume das “ajudas estruturais” recebidas por Portugal da CEE, primeiro, e depois, da União Europeia só é comparável na nossa História ao afluxo das especiarias da Índia no século XVI e dos diamantes do Brasil XVIII. Contudo, esta situação está a mudar. Se tivermos em consideração a contribuição nacional para o orçamento da União, em percentagem do PIB, Portugal é o maior contribuinte.

A conclusão consta de um estudo promovido pela consultora Deloitte e apresenta Portugal na frente, com 0,96%, logo seguido de Espanha, com 0.93%, França, com 0,91% e Alemanha com 0,78%… O Reino Unido - tradicionalmente um excelente negociador de ajudas financeiras e um dos maiores beneficários da PAC, quando ela existia - contribui com apenas 0,54%, metade do valor comparativo português…

Eis aquilo que é hoje a Europa. Os países mais pobres, surjem nas primeiras listas desta tabela, e os mais ricos ou no meio, ou no fundo da mesma. Dirão que o que importa é o esforço bruto para os cofres comunitários, e que os 0,54% são numericamente muito mais significativos do que os 0,9% portugueses sendo o PIB britânico de 2,147 triliões de dólares e o português de apenas 232 biliões (números de 2007), mas a taxa de esforço portuguesa nem por isso deixa de ser maior do que a britânica, francesa ou alemã, as três ditas “locomotivas” europeias, e que afinal circulam numa via onde o preço do bilhete é mais barato do que a via portuguesa…

A adesão de novos países do leste europeu coloca como certo o fim das ajudas comunitárias e logo, da maior razão para a presença portuguesa nesta Europa que afinal sempre foi muito a da “gente loira do norte” de Agostinho da Silva, e dos seus satélites do leste e do centro da Europa do que do Mediterrâneo, alcunhados pela eurocracia de “ClubMed” inúmeras vezes… E estas ajudas não foram cedidas gratuitamente (não há coisa, como os “almoços grátis”): em troca da evaporação da nossa agricultura, arrancada literalmente do chão, e do abate sistemático da nossa frota, a Europa enviou-nos milhões de euros e tornámo-nos num dos países do mundo mais alcatroados. Mas a indústria e a agricultura do norte encontraram novos mercados e nós, cumprindo a “estratégia” de Cavaco transformá-mos este país numa “economia de serviços” e de Turismo, frágil e altamente dependente dos caprichos do estrangeiro e incapaz de viver sem torrentes infindáveis de importações e com desemprego crónico.

Fontes:
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1296589
http://indexmundi.com/pt/reino_unido/produto_interno_bruto_(pib).html

Sobre as múltiplas (11) razões da presente alta dos preços dos combustíveis fósseis

(http://graphics8.nytimes.com)

Em contexto de um apelo mais ou menos generalizado ao boicote a várias empresas do ramo da distribuição e da refinação de combustível importa talvez procurar determinar a estrutura de preços do combustível que chega às bombas de gasolina:

1. Na fonte, o preço de compra do petróleo não refinado (em bruto) varia em direta razão das flutuações de preços nos mercados internacionais e, sobretudo do aumento da procura de combustível resultante do aumento de poder de compra registada na última década na Índia e na China, onde se multiplicam as vendas de automóveis particulares e nos países exportadores de petróleo como Angola e a Rússia. O aumento registado nalguns países desenvolvidos das áreas de cultivo alocadas ao cultivo de soja, óleo e milho nos Estados Unidos e na Europa levou ao aumento dos consumos de combustível necessário para estas produções agro-industriais intensivas, assim como daquele gasto em transportar os seus produtos e nos fertilizantes necessários a estes.

2. Há cerca de 3 semanas que os preços do crude têm vindo a cair… mas no mesmo período ocorreu nos preços finais ao consumidor uma única - e ligeirissima - descida. Onde está esta diferença? No bolso das petrolíferas, naturalmente…

3. Existe uma falta crónica - em todo o mundo - da capacidade de refinação de petróleo. Em resposta a esta lacuna, constroem-se em praticamente todos os países do mundo (excepto em Portugal, como sempre…) refinarias modernas e eficientes… A escassa e insuficiente capacidade de refinação atual faz com que a produção de refinados seja insuficiente. Contudo, estas novas refinarias não estão perto de entrar em laboração, já que se tratam de estruturas muito complexas e de grande dimensões que levam entre 5 a 10 anos a construir. E o ritmo da sua construção não é idêntico ao ritmo a que cresce o consumo mundial, especialmente na China e na Índia, pelo que ainda que se resolvam os problemas de produção de crude, não é expectável que a refinação seja capaz de acompanhar este hipotético aumento nos próximos dez anos. Ainda não há ruptura de abastecimento. Simplesmente, a capacidade de refinação mundial anda perigosamente perto das necessidades de consumo e isso está a pressionar os preços e a fazer lucrar muitos especuladores que investem na construção de refinarias e no armazenamento de produtos refinados que vende em poucas semanas, não introduzindo qualquer valor na cadeia de produção.

4. Os desperdícios na exploração e transporte em oleodutos e no armazenamento, especialmente importantes em países como a Nigéria (o maior produtor africano) ou a Rússia (o país que na última década mais tem sustentado o aumento do consumo mundial).

5. A cartelização de preços, imposta pelo OPEC e que esteve já na origem da primeira crise petrolífera tem agora um papel importante também a jogar agora… Os limites de produção determinados pela organização têm como objectivo uma elevação dos preços pela via da contenção das produções pelo estabelecimento de quotas máximas de produção.

6. A guerra no Iraque é responsável pela reduzida capacidade de produção dos campos iraquianos, um país que tem das reservas mais importantes do mundo… Os ataques a oleodutos, postos de bombagem e de silos de armazenamento são menos comuns hoje do que eram antes do “Surge” de forças americanas de 2007, mas a estrutura de produção continua em muito mau estado e os ataques ainda ocorrem pontualmente, especialmente a Sul, na região de Bassorá.

7. A presença de líderes de elevado perfil mediático em países que são grandes produtores e exportadores de petróleo como sucede atualmente no Irão e na Venezuela também contribui para a presença alta dos preços… A cada declaração bombástica de Chavez ou de Ahmadinejad os investimento bolsistas dos especuladores e os cofres das companhias petrolíferas regozijam, já que aumentam as expectativas de eclosão de conflitos regionais que perturbem os canais de exportação de combustível ou que afectem os locais de exploração de petróleo.

8. Ainda recentemente, o ministro argelino dos petróleos, atualmente presidente da OPEP declarou que “na Europa, 85% do preço dos combustíveis eram taxas e só 25% provinha do preço do petróleo”. Ainda que exagerada, a afirmação não está destituída de validade… Em Portugal, o cruzamento, em dupla tributação (manifestamente ilegal) do ISPP (Imposto sobre os Produtos Petrolíferos) e do IVA distorcem violentamente o preço final pago pelo consumidor. E como se tratam - um e outro - de impostos relativos, calculados a partir do valor bruto variável, quando este aumento, estes aumentam igualmente, arrecadando no processo o Estado com um valor crescente (e imprevisto) de novos rendimentos. Esta anomalia moral explica a falta de interesse e empenho que os governos europeus têm manifestado no que concerne ao controlo da alta dos preços e no controlo da cartelização do mercado. E a razão é simples e evidente: quanto mais subirem os preços, mais impostos são arrecadados. Esta óptica cega e contabilística há de contudo acabar por se refletir negativamente no rendimento do fisco, já que os níveis de consumo começa a descer demasiado para poderem continuar a compensar o aumento da carga fiscal relativa… É que claro que quem pode optar, irá usar transportes públicos cada vez mais, mas aqueles que por obrigação profissional (por exemplo, camionistas ou taxistas) ou porque residem em regiões sem cobertura por transportes públicos irão pagar inevitavelmente cada vez mais… pelo menos enquanto o Estado não alterar esta forma de cobrar os seus impostos. E cessar não somente com a imoral dupla tributação do ISP e do IVA, mas sobretudo com a flutuação destas taxas e estabelecendo anualmente um valor fixo e não relativo ao preço-base do combustível, de forma a que cada aumento deste não venha a corresponder automaticamente um aumento da cobrança fiscal. Este automatismo faz com os governos sejam os maiores interessados no aumento do preço base dos combustíveis o que explica a sua apatia perante este grave problema…

9. Em Portugal, o sector da venda a retalho de combustíveis não funciona bem, de acordo com as regras da concorrência porque a Galp domina o mercado grossista e a propria distribuicao, dado o monopólio que está possui no primeiro e a posicao dominante que detem no segundo.

10. A Galp tem apresentado resultados muito positivos nos últimos anos muito devido as suas exportações de refinados para os EUA, a preços inferiores aos que pratica em Portugal, o que por si só prova a sua presença monopolista no mercado nacional.

11. A refinação de petróleo em Portugal está sob o monopólio da Galp, já que todas as refinarias existentes em Portugal são suas. O único projeto que existia para quebrar o monopolio da Galp, foi o de Patrick Monteiro de Barros, em Sines, e foi abortado por “razoes ambientais”, mas que efetivamente se traduziram numa proteção ao monopólio da petrolífera portuguesa. Isto explica a estranha coincidência de subidas de preços praticada pelas várias petrolíferas presentes no mercado português: todas compram o seu petróleo nas refinarias da Galp…

Em conclusão:

São estas as razões que nos levam a crer que é necessário concentrar a nossa atenção - enquanto consumidores - sobre a Galp, e reforçar e relembrar o nosso apelo a UM BOICOTE A COMPRAS DE COMBUSTÍVEL NA GALP, já que esta pela sua posição dominante e monopolista é a verdadeira “chave” para a atenuação deste problema da alta dos combustíveis e dizemos atenuação porque o verdadeiro problema é de fundo e reside na já evidente - a partir de 2007 - ultrapassagem do pico de produção de petróleo…

O problema deste exagero da alta dos preços, não reside, nem na escalada dos lucros das petroliferas nem sequer no fim do pico da produção… Ele reside na influência perniciosa dos especuladores bolsistas nos preços do barril de crude. Contudo, é imoral e economicamente injustificável que em tal contexto de dificuldades, algumas (poucas) multinacionais lucrem mais do que seria normal em circunstâncias menos adversas, e em Portugal esse problema é o problema chamado “Galp”.

Outro problema correlacionado com este, é o da carga fiscal sobre os combustíveis… Mais alta do que em paises europeus mais ricos.

Ps.: Segundo um artigo do Correio da Manha, cada administrador da Galp ganhava… 1413 euros por dia. Fica logo percebido para onde estão a ir estes lucros…

Quids S12: De férias…

Por duas semanas…

Máquinas portáteis de… Karaoke!

Um fabricante japonês vai lançar uma… máquina portátil de karaoke. Dando continuidade a um apelo atávico que parece contaminar de uma forma extraordinária a população nipónica, a Takara Tomy, vai comercializar o “Hi-kara”, sob a forma de um cubo de 7 cm de lado que permite que o karoquista escolha uma canção (que pode carregar da Internet e passar por USB para o “Hi-kara”) e que expõe o seu vídeo num pequeno écran de LCD de 5 cm. A privacidade fica assegurada pela existência de auscultadores, permitindo o uso do aparelho até nestas condições:

Se ficou interessado nesta proposta, reserve uns 60 euros na sua bolsa… O aparelho foi concebido, segundo o seu diretor de Marketing, para os jovens que não podem fazer karaoke em locais ao ar livre ou em quartos de dormitório. É que segundo a lei japonesa, os jovens com menos de 16 anos devem deixar as festas de karaoke pelas 18:00 e só quem tenha mais do que 18 pode ficar atè ás 23:00. O que de qualquer forma nos dá a conhecer que a Lei japonesa se dedica a regular essa importante matéria (para o Japão) que é o karaoke…

Fonte:

http://www.reuters.com/article/oddlyEnoughNews/idUSKUA04453720080620

Os problemas na central nuclear eslovena e o primeiro alerta nuclear europeu jamais emitido

(http://chromatism.net)

Embora tenha passado desapercebido à maioria dos media portugueses e europeus, no começo do mês de Junho, a Eslovénia emitiu um alerta nuclear sobre uma avaria na única central deste país da europa central. Contudo, no dia seguinte, representantes do governo esloveno retirariam de forma mais ou menos misteriosa o alerta e diziam que “estava tudo bem”.

O alerta utilizou um sistema europeu especial de emergência para notificar da ocorrencia de uma fuga de agua no sistema de refrigeração no seu reator nuclear de Krsko. Segundo a Eslovenia, a fuga teria surgido “numa verificacao de rotina” (deja vu em relacao ao acidente de Chernobyl…) e teria ocorrido num circuito de arrefecimento do reactor. Ou seja, num dos sistemas mais criticos da central e onde os efeitos de uma falha catastrofica seriam maiores…

A central eslovena pertence a uma geracao de reactores onde não havia ainda as garantias de seguranca das instalacoes atuais, tendo sido construida em 1981… Um acidente nuclear de proporcoes identicas ou mesmo aproximadas as de Chenobyl seria de grande relevancia para a Europa, dada a situacao central da Eslovenia em relacao a Europa, e isso alias deve ter estado na origem do alerta, sendo esta a primeira vez que o sistema foi estreado… O governo esloveno diz que se tratou de uma avaria pouco grave, mas se foi assim porque encerraram a Central e, sobretudo, porque ativaram o sistema europeu de alerta nuclear? Por outro lado, o primeiro alerta esloveno mencionava tratar-se de “um exercicio”, um erro depois corrigido, mas que levanta suspeitas de encobrimento… Especialmente quando sabemos a idade deste reactor e o facto de por diversas vezes nos ultimos anos ter sido encerrado devido a avarias diversas.

Apesar de se tratar de um dos reatores nucleares mais antigos da Europa, não há planos para o desligar antes de 2023 apesar de uma vaga crescente de protestos nos paises vizinhos e de uma sucessao de acidentes de que este é apenas o mais recente… Este acidente - tenha havido ou uma tentativa de encobrimento - reflete a natureza dos desafios perante os quais esta confrontada a Europa de hoje… O aumento dos precos do petroleo esta a levar alguns governos a considerar o prolongamento da vida dos reactores nucleares mais antigos, como sucede em Espanha (apesar da oposicao do governo Zapatero) e isso pode explicar a vontade eslovena em diminuir a escala das avarias com o seu único reactor… Mas tendo em conta a proporcao que uma dissolução do nucleo, provocada precisamente por uma falha no sistema de arrefecimento, não se devia impor da propria União Europeia uma decisão que definisse um prazo (e um quadro de apoios) que determinasse o encerramento a muito curto prazo de reactores desta geração no espaço europeu? Quer isto implicasse a sua substituição por novos reactores, quer não… Mas sendo certo que deviam ser encerrados, de uma forma ou de outra.

Fontes:
http://www.energy-daily.com/reports/Slovenia_nuclear_plant_back_on_after_alert_999.html

http://www.msnbc.msn.com/id/24971614

A polícia chinesa expulsa os repórteres estrangeiros das zonas onde ocorrem protestos contra o governo

(Pai chorando sobre as ruínas da escola onde morreu o seu filho, em Sichuan in http://www.cbc.ca)

Uma notícia que não mereceu o devido destaque no Ocidente e, sobretudo nos media portugueses, foi aquela que deu conta da expulsão de repórteres estrangeiros pela polícia da cidade de Dujiangyan, onde o colapso estrutural de várias escolas provocou a ira de familiares contra as administrações locais acusadas de laxismo e incompetência… A expulsão - que colide com promessas governamentais por uma total abertura - reflete um tique totalitário por parte de um dos regimes mais autoritários do mundo que recentemente a propósito das Olimpíadas de Pequim tinha prometido uma maior abertura.

A medida reflecte quão superficial é e a “abertura” chinesa e a nova capacidade da sua população para se manifestar contra a incompetência e a corrupção que contaminam ainda muitos escalões da administração local chinesa.

No total, estima-se que mais de sete mil escolas tenham ruído na afectada província de Sichuan, tendo a maioria delas desabado enquanto edifícios privados, mais antigos, se mantinham de pé, uma anomalia que desde cedo levantou serias dúvidas sobre a qualidade da sua construção. Estes sinais de que algo de muito errado se passa com a construção de escolas na China foram aliás confirmados pela ordem emitida em Julho pelo governo de Pequim para que as autoridades locais da China verificassem a capacidade anti-sísmicas das suas escolas, indicando que a ma construção destes edifícios não se limita apenas a Sichuan e que a ordem de Deng para que “enriqueçam” tem sido seguida de forma demasiado literal e amoral por muitos membros da administração e do empresariado chineses, a custa do sacrifício da sua própria população e da morte de dezenas de milhar de crianças no terremoto de Abril, em Sichuan…

Fonte:
http://news.yahoo.com/s/afp/20080612/wl_asia_afp/chinaquakemediacensor

Os satélites TESS: Descobridores especializados de planetas a lançar em 2012

TESS
(Um satélite TESS in http://web.mit.edu)

Uma equipa do MIT (”Massachusetts Institute of Technology”) liderada pelo professor George R. Ricker está a desenvolver aquele que é um dos projectos que potencialmente poderá ser mais importante para a da humanidade: uma rede de satélites capaz de vigiar todo o céu em busca de planetas extra-solares que passem à frente de estrelas. O sistema será suficientemente sensível ao ponto de poder detectar planetas semelhantes à Terra, isto é… Com as condições devidas para poder gerar e albergar vida semelhante à terrestre.

O curioso nesta história é que o projecto está a ser parcialmente financiado pela Google e que graças ao seu novo “Google Sky” já mostra o firmamento aos seus utilizadores e agora vai pagar pelas câmaras de grande angular que vão equipar estes satélites. A Google vai também contribuir com a sua equipa de engenheiros para desenvolver formas de processar os grandes volumes de informação gerados por essas câmaras.

O satélite TESS (”Transiting Exoplanet Survey Satellite”) deverá ser lançado em 2012 e deverá começar a produzir quase imediatamente dados que vão localizar planetas semelhantes à Terra… Até agora já se conhecem mais de 200 planetas extra-solares, mas são quase todos planetas gigantes, como Júpiter, mas este sistema vai fazer subir este número já que em vez da técnica de detecção mais comum que passa pela observação de alterações gravitacionais nas órbitas estelares, o sistema será capaz de detectar as ínfimas alterações de luz quando um pequeno planeta passa à frente de uma estrela, fazendo com que o número de 20 planetas descobertos até hoje com essa técnica suba exponencialmente.

As câmaras do TESS terão a espantosa resolução de… 192 megapixels (192 vezes mais que a câmara do meu qtek 9100…) e serão capazes de cobrir todo o firmamento, incluindo assim mais de dois milhões de estrelas, esperando-se que o TESS seja capaz de identificar entre estes dois milhões mais de mil sistemas planetários em apenas dois anos.

Fonte:
MIT

Quids S12-50: O que caiu por este buraco e onde está o dito?

Dificuldade: 3

Regras:

1. Cada Quid valerá entre 1 a 3 pontos.
2. Cada pista fornecida deduzirá um ponto aos pontos correntes ao Quid, parando esta descida em 1 ponto.
3. Não serão dadas pistas no próprio dia do lançamento do mesmo, mas apenas no período seguinte (12:30-14:30 do dia seguinte, juntamente com o lançamento do Quid seguinte). Contudo, nesse período do dia seguinte podem ser dadas várias pistas, se pedidas.
4. Os Quids terminam quando um concorrente chegar aos 50 pontos.


ESTE É O ÚLTIMO QUID DURANTE DUAS SEMANAS!

Do futuro da Lusofonia

(http://www.teiaportuguesa.com)

1. O que é a “Lusofonia”?

Antes de nos dedicarmos ao tema “O Futuro da Lusofonia”, é preciso, antes do mais, procurar saber o que é hoje a “Lusofonia”…

A “Lusofonia” não pode ser descrita como a classificação que reúne todos aqueles que falam uma forma ou variante da língua portuguesa, essa descrição castradora e redutora não explica nada e, na sua esterilidade, esgota o significado da palavra. Ainda que nos possamos deixar seduzir pela pura interpretação etimológica do termo, não o devemos fazer porque tal implicaria desprezar o facto de que cada palavra tem uma alma própria e que a alma da palavra “Lusofonia” extravasa em muito o seu simples valor enciclopédico.

2. Introdução

A Lusofonia e o seu espaço não se esgotam nos oito países membros da CPLP. Existem ainda lusófonos em locais tão diversos como Goa, Malaca, Flores e na nossa muito próxima geográfica e emocionalmente, irmã Galiza. É esta dispersão que nos deve levar a encarar a Lusofonia como uma “herança” dos povos que comungam a língua portuguesa, mas como uma promessa de futuro.

É impossível separar a Lusofonia da inclinação messiânica patente na mentalidade portuguesa. Desde cedo, provavelmente ainda antes da própria nacionalidade, com Sertório e Viriato, se podia localizar no ânimo destas gentes na sua luta desigual contra a maior potência da sua época, uma certa teimosia de carácter que contradizia a crua rudeza dos factos. A energia que alimentava esta resistência vinha do mesmo fundo messiânico que, depois, reencontramos em Fernão Passos, no seu panegírico a D. João I e, depois em António Vieira, Fernando Pessoa e, em tempos mais recentes, em Agostinho da Silva. Esta energia messiânica, propulsou os marinheiros, exploradores e navegadores da Expansão portuguesa pelo mundo fora, cravando sementes de Lusofonia nos locais onde o império ultramarino se foi estabelecendo e, quando estas partes do Império ganharam autonomia e independência a Lusofonia ganhou um novo vigor e dinamismo. Ao escolherem a independência e, simultaneamente, a língua portuguesa como matriz unificadora, estes países africanos, o Brasil e Timor deram ao português uma nova relevância e importância.

A Lusofonia é a encarnação moderna de outros mitos de antanho, que atravessaram o corpo mítico da alma portuguesa desde o dito Milagre de Ourique e que no passado eram reconhecidos como “Quinto Império” ou “Império do Espírito Santo”. A Lusofonia, assim como a União Lusófona que poderá ser a sua mais plena e pura evolução consiste assim na forma contemporânea que esses mitos assumem hoje.

A forma que a Lusofonia vai assumir no mundo é – acreditamos – bem diversa dos impérios universais que dominaram no passado a Terra. Não estamos mais em momento de ver o mundo ser dominado por uma grande superpotência, como a Inglaterra do século XIX ou dividido por dois grandes eixos, como o Estados Unidos e a União Soviética. O século XXI é a época das potências médias, como a Índia, a China e o Brasil… A Rússia, cerne fundamental da antiga União Soviética, está esgotada e em erosão demográfica acelerada e os EUA entraram num profundo e duradouro de declínio, consumidos a partir do interior por uma crise económica profunda e por uma guerra esgotante no Iraque. A China, tida por muitos como a grande potência do século, não tem ainda a força económica e militar capaz de justificar esse papel, e começa, também ela a dar sinais de um lento, mas progressivo declínio… O mundo será pois das potências médias e do delicado equilíbrio estabelecido entre elas, o que devolverá ao diálogo e à negociação um papel inédito na História do Homem. Não havendo assim uma única ou um par de superpotencias, o “Quinto Império”, expressão suprema da Lusofonia não poderá ser material, militar ou mesmo económico. Terá que ser uma construção mental, um arquétipo revivificado de eras passadas, exactamente como anteviu Vieira na sua “História do Futuro”: “É conclusão, e de fé, que este Quinto Império de que falamos, anunciado e prometido pelos profetas, é o Império de Cristo e dos cristãos (…) contudo, a sentença comum dos santos e recebida e seguida como certa por todos os expositores é que (…) é Império da Terra e na Terra (…) espiritual no governo, espiritual no uso, nas expressões e no exercício.” A mesma noção foi depois recuperada por Fernando Pessoa: “Não há separação essencial entre os povos que falam a língua portuguesa. Embora Portugal e o Brasil sejam politicamente nações diferentes, contêm, por sistema, uma direcção imperial comum, a que é mister que obedeçam.” e, mais adiante: “Acima da ideia do Império Português, subordinado ao espírito definido pela língua portuguesa, não há fórmula política nem ideia religiosa, (…) Condições imediatas do Império da Cultura é uma língua apta para isso, rica, gramaticalmente completa, fortemente nacional.”

3. A “Lusofonia” e as demais “-fonias” do Mundo

Poderíamos depurar e dissecar o significado de “Lusofonia” comparando-o com outras designações da mesma classe, como as palavras que são usadas para descrever a utilização da língua inglesa ou francesa, mas, de facto, não podemos usar “Lusofonia” da mesma forma que podemos falar de “anglofonia” ou “francofonia”. Se estes termos designam sobretudo diferenças técnicas e operativas quase puras, em que o factor económico é fundamental para que alguém se mantenha na esfera destas duas grandes línguas universais, já a carga emocional da “Lusofonia” – o falar português – é muito mais profunda e cultural do que a mera partilha da mesma língua da antiga potência colonial.

4. Saudade, Saudade do Futuro e Pós-Saudade

A Utopia da Lusofonia é a transposição para o futuro da “Saudade”, um sentimento muito lusófono e especialmente intenso nos portugueses cujo impacto negativo tem arrastado gerações a um encravamento no imobilismo e ao seguidismo servil dos últimos séculos. Mas a Saudade não é apenas um termo que se esgota no passado. A Saudade é também uma ponte mental e linguística para o futuro. Assim, “saudade do Futuro” ou “Pós-Saudade” e “Lusofonia” ou “Quinto Império”, ou ainda, “União Lusófona”, são, de facto, sinónimos e manifestações da mesma realidade. Sendo “Pós-Saudade”, a Lusofonia é um sentimento colectivo inclinado para o futuro. A expressão física da Lusofonia vai passar necessariamente pela sua transmutação de um organismo cultural e transnacional, numa instituição social e política, mas também transnacional, erguida a partir do protoplasma constituído pela língua portuguesa e pela comunhão dos seus falantes, protoplasma esse que julgamos reconhecer na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) cujo desenvolvimento deve ser para todos aqueles que crêem no futuro da Lusofonia e na mais completa expressão da “alma portuguesa”, uma primeira prioridade.

5. Da Diversidade do “Espírito da Lusofonia”

Pelas suas raízes culturais e linguísticas, a Lusofonia é profundamente diversa das formas de imperialismo económico, militar e político que brotaram dos países de matriz cultural germânica. Pela sua diferença é uma forma de sociedade menos paternalista e neocolonial do que os impérios que hoje utilizam o processo da “Globalização” para fazer afirmar o seu poder no mundo. Nenhum país da Lusofonia tem hoje a expressão militar, económica ou demográfica suficientes para que isoladamente possa influir significativamente nos destinos do mundo. Nenhum dos seus países é uma ameaça militar ou territorial para nenhum dos seus vizinhos. Nenhum país lusófono acolhe na sua matriz cultural e religiosa os radicalismos hoje em dia infelizmente tão comuns e viçosos em tantos países do terceiro e do segundo mundo. Pela característica comum a todos os povos lusófonos que é da sua capacidade miscigenadora, tão evidente no Brasil, em Angola e até em Portugal, os países desta futura “Comunidade Lusófona” serão capazes, como mais nenhuns de federar, de unificar pelo exemplo da coexistência religiosa e étnica outros países. Primeiro, semeando o exemplo, e colhendo o fruto deste, entre os países latinos e da bacia do Mediterrâneo, e expandindo pacificamente e voluntariamente esta “Comunidade Lusófona” até uma “Comunidade Latina”, cumprindo o sonho de Agostinho da Silva, depois, por fim, este núcleo trans-continental, unindo todos os povos de fala castelhana e portuguesa estará pronto para alavancar o próximo voo: o de formar uma União Mundial, coesa, diversa e pacífica, que encerre definitivamente o triste e sangrento capítulo bélico da História Humana e que, assim, enfim, permita que o Homem alcance a sua mais plena realização, que é a realização do Eu, pela supressão do mesmo, a favor do bem comum, da realização e do cumprimento da plena criatividade humana sem o dispêndio de energias e recursos preciosos e sempre escassos em atividades belicistas e fratricidas, como aquelas que consomem tanto tempo e recursos a tantos países deste nosso turbulento mundo.
Uma das maiores forças da Lusofonia e um critério que ela detêm quase em absoluta exclusividade com outras línguas universais é a natureza da sua dispersão que resulta muito menos de uma colonização massificada ou de um imperialismo militar ou até de uma explosão demográfica, mas muito mais de uma diáspora migrante que lançou os esporos da Lusofonia e os implantou pelo mundo fora. A sobrevivência da língua e da cultura Lusófonas em locais tão inesperados e inadequados ao seu desenvolvimento, como as pequenas comunidades portugueses nos países do primeiro mundo de expressão anglófona ou germanofóna, entre goeses, em Malaca, na Malásia, ou nas Flores e na Índia profunda, exprime a sua resilência e instinto de sobrevivência.

6. Portugal e o Brasil: Papel respectivo na “liderança” da Lusofonia

Portugal, pela história e pelo seu património, é a matriz mental e geográfica do português. Mas poderá ser ainda hoje considerado como a referência absoluta da língua? Sendo imparciais, tanto quanto nos é possível sê-lo a partir da nossa própria nacionalidade, temos que admitir que hoje, o Brasil, pelo gigantismo da sua geografia, pelo número simples da sua população e até, e sobretudo pelo dinamismo da sua economia tem todas as condições para se assumir como líder deste movimento pan-lusófono que julgamos reconhecer no destino coletivo dos povos lusófonos. Por “liderança”, significa que agora, encerrado o capítulo dos “impérios mundiais”, devemos procurar no Brasil, a nova capital de um império lusófono que se estenda de Díli a Lisboa? Não o cremos… os tempos não o permitem mais… Hoje em dia, assistimos à deprimente e lenta agonia do melhor e mais poderoso exército da história mundial nos pobres subúrbios de Bagdade e Mossul, e este exemplo devia ensinar-nos que não poderemos ver “tropas brasileiras” ocupando a Praça do Chiado ou os Jerónimos, não tanto, quanto veremos pára-quedistas angolanos ou portugueses tomando o Palácio do Planalto… Temeremos então o dito “colonialismo económico”? A monumentalidade dos índices brasileiros (número de energia gerada, de petróleo extraído, de cana de açúcar, etc) pode indiciar que aqueles que receiam esta forma renovada de império têm razão para o temer… mas de que serve o predomínio económico sem as devidas bases culturais ou sociais? E nada faz antever na sociedade brasileira uma vontade para o expansionismo ou para o intervencionismo. Bem pelo contrário, tradicionalmente o Brasil sempre teve nesse cenário - internacional e diplomático - um perfil excessivamente modesto e inadequado para a importância demográfica e económica que o país já tem na cena internacional.

7. A Força da Dispersão

Poucas línguas no mundo são faladas por gentes tão diversas e tão dispersas geográfica e culturalmente falando como o português. A praticamente única extensão geográfica do português no mundo é um resultado direto da História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa e, como tal, um testemunho vivo do passado secular de Portugal. Consequentemente, a própria Lusofonia carrega em si mesma o peso deste passado já que os velhos conflitos entre colonos, colonizadores e colonizados trespassam ainda muitas das realidades políticas e sociais dos países lusófonos e servem de canga que impede o seu maior aprofundamento. Apesar deste peso morto, a Lusofonia não tem – nem de perto – a mesma carga histórica negativa que transportam a francofonia ou até a anglofonia. E mesmo onde ela ainda existe – consequência das guerras de Libertação, é mais ténue e foi já reduzida pelo passar do tempo e pela reaproximação motivada pelos fluxos migratórios.

Sérgio Buarque da Holanda, nas “Raízes do Brasil” ao abordar a herança lusa do Brasil, inventa a expressão “territórios-ponte” e encontra assim a âncora fundadora do papel de Portugal futuro no mundo. Foi para espalhar esses “territórios-ponte” que a presença portuguesa no Marrocos se limitou sempre à posse de algumas praças-fortes. Foi para aplicar esse modelo que se invadiu Ceuta e que não havia então projetos para expandir a partir daí, pelo interior marroquino fora a “terra portuguesa” em África. Foi para lançar essas estacas pelo mundo que a presença portuguesa no Oriente se caracterizou sempre pelo controlo de algumas centenas de feitorias dispersas e de dezenas de cidades-chave como Diu, Goa, Malaca e Macau e nunca ambicionou - como ambicionaram e cumpriram ingleses e russos - à posse de países e continentes inteiros. E quando os projetos portugueses no Oriente se abastardaram - fruto das influências de Maquiavel e do norte da Europa - e se delinearam fátuos e irrealistas planos para conquistar o “império da terra” na Índia ou para ligar as duas costas de África ou para ocupar todo o reino de Marrocos, por isso quando tais e tamanhos abastardamentos à missão universal de Portugal foram cumpridos, pagámos, e pagámos bem com a perda da nossa independência nacional, com a perda de numerosas e excelentes gentes em lutas desproporcionais e absurdas até bem dentro do século XX. Entre todas estas tentativas de quebrar o mandato imerso na missão portuguesa dos Descobrimentos, apenas o Brasil se salvou… Só nele, se constituiu um imenso “império de terra”, pelo sertão dentro e por bandeira fora. Ou não… A ocupação portuguesa do Brasil foi uma espécie de “navegação por terra”, sempre à vista do último entreposto conhecido, batendo a sertania, vencendo a natureza