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1. O que é a “Lusofonia”?
Antes de nos dedicarmos ao tema “O Futuro da Lusofonia”, é preciso, antes do mais, procurar saber o que é hoje a “Lusofonia”…
A “Lusofonia” não pode ser descrita como a classificação que reúne todos aqueles que falam uma forma ou variante da língua portuguesa, essa descrição castradora e redutora não explica nada e, na sua esterilidade, esgota o significado da palavra. Ainda que nos possamos deixar seduzir pela pura interpretação etimológica do termo, não o devemos fazer porque tal implicaria desprezar o facto de que cada palavra tem uma alma própria e que a alma da palavra “Lusofonia” extravasa em muito o seu simples valor enciclopédico.
2. Introdução
A Lusofonia e o seu espaço não se esgotam nos oito países membros da CPLP. Existem ainda lusófonos em locais tão diversos como Goa, Malaca, Flores e na nossa muito próxima geográfica e emocionalmente, irmã Galiza. É esta dispersão que nos deve levar a encarar a Lusofonia como uma “herança” dos povos que comungam a língua portuguesa, mas como uma promessa de futuro.
É impossível separar a Lusofonia da inclinação messiânica patente na mentalidade portuguesa. Desde cedo, provavelmente ainda antes da própria nacionalidade, com Sertório e Viriato, se podia localizar no ânimo destas gentes na sua luta desigual contra a maior potência da sua época, uma certa teimosia de carácter que contradizia a crua rudeza dos factos. A energia que alimentava esta resistência vinha do mesmo fundo messiânico que, depois, reencontramos em Fernão Passos, no seu panegírico a D. João I e, depois em António Vieira, Fernando Pessoa e, em tempos mais recentes, em Agostinho da Silva. Esta energia messiânica, propulsou os marinheiros, exploradores e navegadores da Expansão portuguesa pelo mundo fora, cravando sementes de Lusofonia nos locais onde o império ultramarino se foi estabelecendo e, quando estas partes do Império ganharam autonomia e independência a Lusofonia ganhou um novo vigor e dinamismo. Ao escolherem a independência e, simultaneamente, a língua portuguesa como matriz unificadora, estes países africanos, o Brasil e Timor deram ao português uma nova relevância e importância.
A Lusofonia é a encarnação moderna de outros mitos de antanho, que atravessaram o corpo mítico da alma portuguesa desde o dito Milagre de Ourique e que no passado eram reconhecidos como “Quinto Império” ou “Império do Espírito Santo”. A Lusofonia, assim como a União Lusófona que poderá ser a sua mais plena e pura evolução consiste assim na forma contemporânea que esses mitos assumem hoje.
A forma que a Lusofonia vai assumir no mundo é – acreditamos – bem diversa dos impérios universais que dominaram no passado a Terra. Não estamos mais em momento de ver o mundo ser dominado por uma grande superpotência, como a Inglaterra do século XIX ou dividido por dois grandes eixos, como o Estados Unidos e a União Soviética. O século XXI é a época das potências médias, como a Índia, a China e o Brasil… A Rússia, cerne fundamental da antiga União Soviética, está esgotada e em erosão demográfica acelerada e os EUA entraram num profundo e duradouro de declínio, consumidos a partir do interior por uma crise económica profunda e por uma guerra esgotante no Iraque. A China, tida por muitos como a grande potência do século, não tem ainda a força económica e militar capaz de justificar esse papel, e começa, também ela a dar sinais de um lento, mas progressivo declínio… O mundo será pois das potências médias e do delicado equilíbrio estabelecido entre elas, o que devolverá ao diálogo e à negociação um papel inédito na História do Homem. Não havendo assim uma única ou um par de superpotencias, o “Quinto Império”, expressão suprema da Lusofonia não poderá ser material, militar ou mesmo económico. Terá que ser uma construção mental, um arquétipo revivificado de eras passadas, exactamente como anteviu Vieira na sua “História do Futuro”: “É conclusão, e de fé, que este Quinto Império de que falamos, anunciado e prometido pelos profetas, é o Império de Cristo e dos cristãos (…) contudo, a sentença comum dos santos e recebida e seguida como certa por todos os expositores é que (…) é Império da Terra e na Terra (…) espiritual no governo, espiritual no uso, nas expressões e no exercício.” A mesma noção foi depois recuperada por Fernando Pessoa: “Não há separação essencial entre os povos que falam a língua portuguesa. Embora Portugal e o Brasil sejam politicamente nações diferentes, contêm, por sistema, uma direcção imperial comum, a que é mister que obedeçam.” e, mais adiante: “Acima da ideia do Império Português, subordinado ao espírito definido pela língua portuguesa, não há fórmula política nem ideia religiosa, (…) Condições imediatas do Império da Cultura é uma língua apta para isso, rica, gramaticalmente completa, fortemente nacional.”
3. A “Lusofonia” e as demais “-fonias” do Mundo
Poderíamos depurar e dissecar o significado de “Lusofonia” comparando-o com outras designações da mesma classe, como as palavras que são usadas para descrever a utilização da língua inglesa ou francesa, mas, de facto, não podemos usar “Lusofonia” da mesma forma que podemos falar de “anglofonia” ou “francofonia”. Se estes termos designam sobretudo diferenças técnicas e operativas quase puras, em que o factor económico é fundamental para que alguém se mantenha na esfera destas duas grandes línguas universais, já a carga emocional da “Lusofonia” – o falar português – é muito mais profunda e cultural do que a mera partilha da mesma língua da antiga potência colonial.
4. Saudade, Saudade do Futuro e Pós-Saudade
A Utopia da Lusofonia é a transposição para o futuro da “Saudade”, um sentimento muito lusófono e especialmente intenso nos portugueses cujo impacto negativo tem arrastado gerações a um encravamento no imobilismo e ao seguidismo servil dos últimos séculos. Mas a Saudade não é apenas um termo que se esgota no passado. A Saudade é também uma ponte mental e linguística para o futuro. Assim, “saudade do Futuro” ou “Pós-Saudade” e “Lusofonia” ou “Quinto Império”, ou ainda, “União Lusófona”, são, de facto, sinónimos e manifestações da mesma realidade. Sendo “Pós-Saudade”, a Lusofonia é um sentimento colectivo inclinado para o futuro. A expressão física da Lusofonia vai passar necessariamente pela sua transmutação de um organismo cultural e transnacional, numa instituição social e política, mas também transnacional, erguida a partir do protoplasma constituído pela língua portuguesa e pela comunhão dos seus falantes, protoplasma esse que julgamos reconhecer na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) cujo desenvolvimento deve ser para todos aqueles que crêem no futuro da Lusofonia e na mais completa expressão da “alma portuguesa”, uma primeira prioridade.
5. Da Diversidade do “Espírito da Lusofonia”
Pelas suas raízes culturais e linguísticas, a Lusofonia é profundamente diversa das formas de imperialismo económico, militar e político que brotaram dos países de matriz cultural germânica. Pela sua diferença é uma forma de sociedade menos paternalista e neocolonial do que os impérios que hoje utilizam o processo da “Globalização” para fazer afirmar o seu poder no mundo. Nenhum país da Lusofonia tem hoje a expressão militar, económica ou demográfica suficientes para que isoladamente possa influir significativamente nos destinos do mundo. Nenhum dos seus países é uma ameaça militar ou territorial para nenhum dos seus vizinhos. Nenhum país lusófono acolhe na sua matriz cultural e religiosa os radicalismos hoje em dia infelizmente tão comuns e viçosos em tantos países do terceiro e do segundo mundo. Pela característica comum a todos os povos lusófonos que é da sua capacidade miscigenadora, tão evidente no Brasil, em Angola e até em Portugal, os países desta futura “Comunidade Lusófona” serão capazes, como mais nenhuns de federar, de unificar pelo exemplo da coexistência religiosa e étnica outros países. Primeiro, semeando o exemplo, e colhendo o fruto deste, entre os países latinos e da bacia do Mediterrâneo, e expandindo pacificamente e voluntariamente esta “Comunidade Lusófona” até uma “Comunidade Latina”, cumprindo o sonho de Agostinho da Silva, depois, por fim, este núcleo trans-continental, unindo todos os povos de fala castelhana e portuguesa estará pronto para alavancar o próximo voo: o de formar uma União Mundial, coesa, diversa e pacífica, que encerre definitivamente o triste e sangrento capítulo bélico da História Humana e que, assim, enfim, permita que o Homem alcance a sua mais plena realização, que é a realização do Eu, pela supressão do mesmo, a favor do bem comum, da realização e do cumprimento da plena criatividade humana sem o dispêndio de energias e recursos preciosos e sempre escassos em atividades belicistas e fratricidas, como aquelas que consomem tanto tempo e recursos a tantos países deste nosso turbulento mundo.
Uma das maiores forças da Lusofonia e um critério que ela detêm quase em absoluta exclusividade com outras línguas universais é a natureza da sua dispersão que resulta muito menos de uma colonização massificada ou de um imperialismo militar ou até de uma explosão demográfica, mas muito mais de uma diáspora migrante que lançou os esporos da Lusofonia e os implantou pelo mundo fora. A sobrevivência da língua e da cultura Lusófonas em locais tão inesperados e inadequados ao seu desenvolvimento, como as pequenas comunidades portugueses nos países do primeiro mundo de expressão anglófona ou germanofóna, entre goeses, em Malaca, na Malásia, ou nas Flores e na Índia profunda, exprime a sua resilência e instinto de sobrevivência.
6. Portugal e o Brasil: Papel respectivo na “liderança” da Lusofonia
Portugal, pela história e pelo seu património, é a matriz mental e geográfica do português. Mas poderá ser ainda hoje considerado como a referência absoluta da língua? Sendo imparciais, tanto quanto nos é possível sê-lo a partir da nossa própria nacionalidade, temos que admitir que hoje, o Brasil, pelo gigantismo da sua geografia, pelo número simples da sua população e até, e sobretudo pelo dinamismo da sua economia tem todas as condições para se assumir como líder deste movimento pan-lusófono que julgamos reconhecer no destino coletivo dos povos lusófonos. Por “liderança”, significa que agora, encerrado o capítulo dos “impérios mundiais”, devemos procurar no Brasil, a nova capital de um império lusófono que se estenda de Díli a Lisboa? Não o cremos… os tempos não o permitem mais… Hoje em dia, assistimos à deprimente e lenta agonia do melhor e mais poderoso exército da história mundial nos pobres subúrbios de Bagdade e Mossul, e este exemplo devia ensinar-nos que não poderemos ver “tropas brasileiras” ocupando a Praça do Chiado ou os Jerónimos, não tanto, quanto veremos pára-quedistas angolanos ou portugueses tomando o Palácio do Planalto… Temeremos então o dito “colonialismo económico”? A monumentalidade dos índices brasileiros (número de energia gerada, de petróleo extraído, de cana de açúcar, etc) pode indiciar que aqueles que receiam esta forma renovada de império têm razão para o temer… mas de que serve o predomínio económico sem as devidas bases culturais ou sociais? E nada faz antever na sociedade brasileira uma vontade para o expansionismo ou para o intervencionismo. Bem pelo contrário, tradicionalmente o Brasil sempre teve nesse cenário - internacional e diplomático - um perfil excessivamente modesto e inadequado para a importância demográfica e económica que o país já tem na cena internacional.
7. A Força da Dispersão
Poucas línguas no mundo são faladas por gentes tão diversas e tão dispersas geográfica e culturalmente falando como o português. A praticamente única extensão geográfica do português no mundo é um resultado direto da História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa e, como tal, um testemunho vivo do passado secular de Portugal. Consequentemente, a própria Lusofonia carrega em si mesma o peso deste passado já que os velhos conflitos entre colonos, colonizadores e colonizados trespassam ainda muitas das realidades políticas e sociais dos países lusófonos e servem de canga que impede o seu maior aprofundamento. Apesar deste peso morto, a Lusofonia não tem – nem de perto – a mesma carga histórica negativa que transportam a francofonia ou até a anglofonia. E mesmo onde ela ainda existe – consequência das guerras de Libertação, é mais ténue e foi já reduzida pelo passar do tempo e pela reaproximação motivada pelos fluxos migratórios.
Sérgio Buarque da Holanda, nas “Raízes do Brasil” ao abordar a herança lusa do Brasil, inventa a expressão “territórios-ponte” e encontra assim a âncora fundadora do papel de Portugal futuro no mundo. Foi para espalhar esses “territórios-ponte” que a presença portuguesa no Marrocos se limitou sempre à posse de algumas praças-fortes. Foi para aplicar esse modelo que se invadiu Ceuta e que não havia então projetos para expandir a partir daí, pelo interior marroquino fora a “terra portuguesa” em África. Foi para lançar essas estacas pelo mundo que a presença portuguesa no Oriente se caracterizou sempre pelo controlo de algumas centenas de feitorias dispersas e de dezenas de cidades-chave como Diu, Goa, Malaca e Macau e nunca ambicionou - como ambicionaram e cumpriram ingleses e russos - à posse de países e continentes inteiros. E quando os projetos portugueses no Oriente se abastardaram - fruto das influências de Maquiavel e do norte da Europa - e se delinearam fátuos e irrealistas planos para conquistar o “império da terra” na Índia ou para ligar as duas costas de África ou para ocupar todo o reino de Marrocos, por isso quando tais e tamanhos abastardamentos à missão universal de Portugal foram cumpridos, pagámos, e pagámos bem com a perda da nossa independência nacional, com a perda de numerosas e excelentes gentes em lutas desproporcionais e absurdas até bem dentro do século XX. Entre todas estas tentativas de quebrar o mandato imerso na missão portuguesa dos Descobrimentos, apenas o Brasil se salvou… Só nele, se constituiu um imenso “império de terra”, pelo sertão dentro e por bandeira fora. Ou não… A ocupação portuguesa do Brasil foi uma espécie de “navegação por terra”, sempre à vista do último entreposto conhecido, batendo a sertania, vencendo a natureza